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Crítica | Yasuke – 1ª Temporada

por Ritter Fan
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Todo mundo sabe que o período feudal no Japão é quase que completamente desprovido de histórias interessantes e personagens cativantes e que só gerou péssimas obras de ficção galgadas na realidade nas mais variadas mídias, como os medíocres filmes Os Sete Samurais e Harakiri, os fracos livros Xógum e Musashi, as cansativas séries Hôjô Tokimune e Yagyû Ichizoku no Inbô (The Yagyu Conspiracy) e, claro, as horrorosas HQs Lobo Solitário e Vagabond. E, como se isso não bastasse, Yasuke, o personagem histórico conhecido como o Samurai Negro ou Samurai Africano, já teve infinitas adaptações no Ocidente, pelo que todo mundo já cansou de falar dele, sendo desnecessário, em um mundo que inexplicavelmente insiste em dar espaço para as minorias, focar em mais outro personagem negro enfiado garganta abaixo só para lacrar.

É por isso que LeSean Thomas, ao trabalhar no desenvolvimento de uma série animada baseada em Yasuke, viu-se completamente sem saída, em uma verdadeira camisa de força criativa se ele tivesse sido obrigado a trabalhar apenas com a história do referido personagem, mesmo que romantizada, e o pouquíssimo excitante período feudal no Japão. A solução para isso? Ora, sem dúvida alguma criar uma obra que se passa em um período feudal nipônico alternativo em que, nas guerras de unificação do país empreendidas por Oda Nobunaga, daimyo que efetivamente empregou Yasuke como samurai, mechas, robôs, magia, metamorfos, monstros, mutantes e o diabo a quatro fossem lugar-comum, tão facilmente encontráveis quanto grama ou neve nas paisagens que um dia Katsushika Hokusai desenharia e pintaria e fazer do protagonista quase que um coadjuvante – um extra, para ser sincero – em sua própria narrativa. Afinal, é muito melhor ver uma mulher-urso russa descendo a lenha em feiticeiros do que deixar a história chata de Yasuke ser contada, não é mesmo?

*Desligando o modo ironia (só para ter certeza que meus leitores não me acharão loucos pelo que escrevi nos dois parágrafos acima), revirando os olhos e soltando um suspiro de desespero, vamos à crítica…*

O que raios se passou na cabeça de LeSean Thomas? Yasuke não tem sequer uma – UMINHA PARA CONTAR HISTÓRIA – adaptação no Ocidente e sequer encontrar livros de história que abordem o Samurai Negro com mais de um ou dois parágrafos é um inferno total. Acompanhei de perto todos os rumores e nutri enorme esperança quando saiu o anúncio de que um longa-metragem sobre o personagem seria lançado com Chadwick Boseman como estrela, mas eis que o destino nos tirou o ator de nosso convívio, deixando-nos, então, com a “versão” de Thomas…

Porque o showrunner, diante de todo esse cenário de seca completa sobre Yasuke, não poderia se contentar em contar – pela primeira vez ao alcance de tanta gente, considerando que a série é do Netflix! – a história do personagem, ainda que romantizada dado o pouco que se sabe sobre ele? Porque galgar tanto a série na realidade, com Oda Nobunaga (Takehiro Hira) inclusive aparecendo no início e cometendo seu famoso harakiri diante da derrota, com o uso dos Ninjas de Iga e menções ao mítico Hattori Hanzo e, claro, o próprio Yasuke (LaKeith Stanfield), se o objetivo final era defenestrar tudo isso e construir uma narrativa completamente idiota em que o Samurai Negro, aposentado, tem que voltar a empunhar sua katana para salvar a jovem Saki (Maya Tanida), garota que começa a manifestar poderes misteriosos como acontece com os X-Men, das garras de todos os vilões do arquipélago do Pacífico?

E antes que me venham com “ah, mas o crítico não entendeu a proposta”, eu sei muito bem que há outras obras com samurais e que têm o Japão feudal – ou versões dele – como pano de fundo que contam com criaturas fantásticas e/ou tecnológicas. Yasuke em tese até inspirou uma delas, Afro Samurai, além de haver um mar de outras como Samurai 7 e assim por diante. Mas o ponto é que LeSean Thomas não tem direção alguma mesmo que aceitemos com tranquilidade que esse Yasuke só tem mesmo a cor da pele e sua conexão com Nobunaga do Yasuke histórico. Afinal, é direito dele fazer o que quiser e, em sua defesa, ele deixa o lado fantástico e sobrenatural de sua abordagem absolutamente claro ao espectador desde os primeiros segundos de projeção.

A questão verdadeira, mais importante do que ele estragar uma potencialmente excelente história real de um homem cuja existência é quase que completamente ignorada, é que Yasuke – a série – não tem personalidade alguma, não tem roteiro algum. É um fiapo narrativo que serve de desculpa para violência extrema (quer uma série animada com extrema violência, mas roteiro bom o suficiente para justificá-la, então veja Invencível) a cada 10 ou 15 segundos e para inserir personagens não completamente humanos em quantidade suficiente para povoar a Terra-Média (que fique claro: Tolkien jamais usaria coisas tão sem graça quanto as que desfilam por aqui) em uma fusão nunca homogênea de estilos que cansa muito antes de conseguir deslumbrar ou até mesmo causar um leve levantar de sobrancelha como marca de que a coisa ficou interessante. Há um afã tão grande em colocar tudo em tela, até a pia da cozinha como dizem os americanos, que o resultado é uma mixórdia completa que não consegue ter história ou sequer personagens minimamente interessantes, restando, apenas, um espetáculo emburrecedor, entorpecedor, ensurdecedor e capaz de levar muita gente a crises convulsivas pelo tanto de luzes piscantes e explosões que pipocam na tela.

Chegam a ser hilário todos os dois ou três minutos dedicados a explicar a presença histórica de um homem africano no isolado Japão em pelo século XVI, pois esse flashbacks são tão deslocados que parecem fazer parte de outra animação, uma provavelmente infinitamente melhor que essa porcaria que Thomas resolveu “criar”. Da mesma forma, é inacreditavelmente cômico como a garotinha Saki, frágil e doente pelas manifestações iniciais de seus poderes, desenvolve-se a toque de caixa, sem nenhuma lógica, como se Chris Claremont transformasse a adolescente Jean Grey em Fênix do nada, de uma página para outra ou como a grande vilã é introduzida na base do “porque sim”, pois tentar contextualizar alguma coisa é, talvez, uma tarefa pequena demais para a grandeza da mente do showrunner.

Fazendo esforço hercúleo para achar alguma coisa positiva além da já citada introdução dos elementos… hummm… não-históricos nos primeiros segundos de projeção que ajudam a não deixar o espectador ludibriado, diria que o fato de a história ser quase que completamente fechada, com começo, meio e fim, é um ponto positivo, até porque espero com todas as minhas forças que esse pedregulho narrativo não seja renovado. Para se ter uma ideia, o showrunner não consegue acertar nem mesmo com a trilha sonora, já que tudo o que é feito é a sincronização de música eletrônica pouco inspirada composta por Flying Lotus, também um dos produtores, nos mais inadequados momentos possíveis – querem música assim em obra de época, aprendam com Carruagens de Fogo ou O Feitiço de Áquila -, inclusive na constrangedora sequência de abertura dos episódios, uma das mais tenebrosas que tive o desprazer de ver e ouvir em minha vida. E não, o trabalho de animação do tão elogiado estúdio MAPPA é no máximo “ok” e, mesmo assim, com viés de baixa, já que a obra parece corrida, com diversos personagens de fundo não sendo mais do que rabiscos e com a animação em sequências de ação que é mais desanimação do que qualquer outra coisa. Nem mesmo os designs afagam os olhos, mais parecendo reaproveitamento de diferentes obras anteriores.

Yasuke é, portanto, um gigantesco exemplo de desperdício de potencial e uma enorme lição de que “mais” não é sinônimo de “melhor”. Mesmo que abordar o personagem histórico em uma série com esse viés (o histórico apenas) estivesse fora da discussão sobre essa obra lá em sua pré-produção, era de se esperar que pelo menos a necessidade quase doentia de se colocar elementos tecnológicos e sobrenaturais seguisse uma lógica qualquer, que houvesse uma boa história por trás que criasse um universo coeso. Mas a verdade é que devem ter concluído que espectador não merece respeito mesmo e que engolirá qualquer porcaria ultraviolenta que colocarem nas telinhas só porque ela é ultraviolenta…

P.s.: Alguns podem querer saber o porquê de eu não classificar a série como “Lixo Atômico” em vista de meus comentários razoavelmente cáusticos e a resposta é simples: eu tenho um fraco por Japão feudal em geral e samurais/ronins em particular. Por isso, peguei leve…

Yasuke (Idem – Japão/EUA, 29 de abril de 2021)
Criação: LeSean Thomas
Direção: Takeru Satō, Yasufumi Soejima, Kunihiro Mori, Hiroyuki Kanbe, Kazuya Iwata
Roteiro: LeSean Thomas, Flying Lotus (Steven Ellison), Nick Jones Jr., Alex Larsen
Elenco (em inglês): LaKeith Stanfield, Takehiro Hira, Maya Tanida, Ming-Na Wen, Gwendoline Yeo, Paul Nakauchi, Dia Frampton, Dan Donohue, Darren Criss, Julie Marcus, William Christopher Stephens, Amy Hill
Elenco (em japonês): Jun Soejima, Takehiro Hira, Kiko Tamura, Fusako Urabe, Rie Tanaka, Yu Kamio, Eri Kitamura, Shigeru Ushiyama, Shunsuke Kubozuka, Hiroki Nanami, Kenji Kitamura, Yoshiko Sakakibara
Duração: 171 min. (seis episódios)

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