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Crítica | Um Filme Minecraft

O universo de criação sem criatividade.

por Kevin Rick
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Para quem é fã de Minecraft e já pirou com a nota acima, faço um pedido: respira e toma um café, porque daqui pra baixo só vai piorar. Não é querendo ser maldoso, mas a adaptação do jogo sensação da última década em nenhum momento me convenceu de ser algo minimamente razoável, o que foi confirmado durante a terrível experiência cinematográfica de passar 100 minutos vendo uma amálgama de clichês e ideias genéricas de uma produção a toque de caixa, milimetricamente pensada em algoritmos.

Temos as referências e os easter-eggs para confortar quem conhece os jogos; temos aquele humor bobinho e despretensioso para justificar o fio de roteiro sem alma e sem personalidade; temos o herói de ação Jason Momoa jogando contra o estereótipo, algo longe de ser novidade; e temos até aquele diretor do cenário indie para trazer alguns shots diferentes, com o cineasta Jared Hess se mostrando mais um da escola simétrica de “quero ser Wes Anderson“, ou para fingir que a obra é autoconsciente de seus conceitos de mercado, mirando nos ótimos Barbie (2023) ou A Aventura Lego, mas ficando mais próximo de uma versão ainda menos inspirada e divertida do que os razoáveis filmes novos da franquia Jumanji. Inclusive, ouviram falar que Thunderbolts vai ser o “filme A24 da Marvel”? He, he, onde que o cinema blockbuster vai parar… uma reciclagem interminável de nostalgia e fan-service que gosta de fingir ter uma embalagem diferentona ou que se “assume” como uma diversão descerebrada.

Divago, porém. Voltando ao tema da crítica, eu sei que alguns estão torcendo o nariz e pensando que não conheço o jogo. Ledo engano. Joguei por algumas horas nas últimas semanas e detestei, achei tudo um porre e um completo desperdício do meu tempo. Mas não é por isso que não gosto da adaptação, até porque tenho horror à League of Legends e sou totalmente fissurado na excelente Arcane. O problema não é o jogo ser ruim – para mim, vale ressaltar -, porque o conceito por trás do mesmo é extremamente interessante de ser traduzido para os cinemas: uma obra sobre a arte da criação e da imaginação, de um universo onde tudo é possível, sem limitações e que parece perfeito para a crescente onda de computação gráfica nas telonas. O problema é a execução preguiçosa que vemos em uma aventura infantil que é igual a tantas outras e que não oferece nada remotamente próximo de originalidade, autenticidade ou criatividade.

Isso fica muito claro nos minutos iniciais do longa, em que vemos um contagiante Jack Black despejar um milhão de informações no espectador. Dizer que o começo da obra é expositivo ou didático chega a ser eufemismo, no que parece ser um pitch de estúdio, não uma introdução à história. A sequência é insuportável e interminável, chegando ao ponto de Black, o equivalente humano a um panda, soar irritante em suas explicações da premissa da obra, de como funciona esse universo, quem é a antagonista, como chegar ali, como passar por aqui, e assim sucessivamente, não só no começo, como também ao longo da narrativa em seu papel chatíssimo de guia, sempre mastigando a obra para o público ou fazendo acenos para os fãs. O roteiro de cinco mãos não entende nem um pouco o conceito simples de “mostrar, não falar”, tampouco consegue transpor a linguagem de participação ativa dos jogos – existe um ensaio disso com o garotinho Henry (Sebastian Hansen), que é uma espécie de jogador colocado em tela, descobrindo as atividades e habilidades desse universo, mas nada que realmente chame a atenção.

O restante do elenco é esforçado, mas ganha pouco com o que trabalhar. Jason Momoa até diverte em sua aparição inicial como Garrett Garrison, um bobalhão que ficou parado no tempo, mas a piada de uma nota só é cansativa e usada à exaustão durante o filme, com a mesma crítica valendo para Black e sua constante animação pastelona se tornando um saco quanto mais a obra progride – algumas cenas musicais dele são puro constrangimento, aliás. A irmã mais velha de Henry e sua corretora também não ganham muito o que fazer, soando deslocadas ou escanteadas em grandes porções da trama, no problema do roteiro com personagens sobrando ou blocos inteiros que são descartáveis, como no núcleo de Marlene (Jennifer Coolidge), que flerta com um dos NPC’s desse universo. Existem alguns arcos bem comuns de amadurecimento e autodescobrimento dos personagens, incluindo uma linha dramática de luto que é totalmente esquecida no final da história, mas tudo superficial demais para deixar alguma impressão.

Para além dos personagens esquecíveis, o meu maior problema com o filme é o mundo sem vida e a aventura estéril. Considerando que estamos em um universo de pura imaginação, chega a ser fascinante como a produção não consegue criar um espaço sequer que seja notável. Não me entendam mal, o CGI aqui é excelente, borrando com qualidade o live-action e a computação gráfica. Estou falando da falta de inventividade da jornada, que passa por uma dimensão maligna de porcos que parece ter saído de qualquer filme básico de fantasia; uma vila de aldeões e uma montanha com diamantes que a gente já viu em diversos filmes de aventura; e, claro, uma batalha final absolutamente ordinária, com um artefato que precisa ser retomado/destruído. É tudo tão genérico que a produção parece um pastiche, mas sem qualquer senso paródico para suavizar a falta de imaginação. Parece que a direção de arte esbarrou no “tudo é quadrado” e não conseguiu ir além disso, com o momento de maior inspiração da obra sendo uma luta de um zumbi em cima de um frango contra o Momoa…

O encadeamento da aventura é artificial, como se estivesse fazendo paradas em determinados locais que querem mostrar para os fãs, no sentido de “estamos mostrando aquele lugar X” ou “olha só aquele artefato Y”, no que é uma construção de mitologia pobre e uma narrativa pouco envolvente, que não explora a fundo o conceito de construção e criação por trás do jogo. O humor também não consegue engrenar, com uma estrutura similar à esquetes, com cada bloco servindo como uma grande piada, muitas das quais, como falei, são repetitivas. O texto ainda tem alguns momentos divertidinhos, seja encostando no carisma do elenco, seja no tom de deadpan que Hess traz do seu Napoleon Dynamite em poucas situações, mas é algo ligeiro demais para realmente entregar a tal “diversão despretensiosa” que todo mundo parece querer hoje em dia.

Se você gosta do jogo ou é uma daquelas pessoas que gosta de ficar horas vendo outra pessoa jogar esse jogo, talvez se sinta representado em Um Filme Minecraft. E tá tudo bem, cada um com o seu cada um. Mas não me venha com a conversa de “esse filme é para crianças” para defender essa porcaria, porque ter um tom infantil não justifica preguiça, falta de criatividade, zero senso de personalidade e um roteiro tão mequetrefe que parece ter sido feito por uma I.A. ou por uma corporação que está gradualmente entendendo como fisgar o público com a regurgitação de nostalgia e referências de IP’s de sucesso. Se essa é a tal revolução de adaptações de jogos, eu não quero, porque criar, jogar e imaginar vai muito além de misturar elementos de sucesso das massas para vender um produto genérico desse.

Um Filme Minecraft (A Minecraft Movie) — EUA, 03 de abril de 2025
Direção: Jared Hess
Roteiro: Chris Bowman, Hubbel Palmer, Neil Widener, Gavin James, Chris Galletta, Allison Schroeder
Elenco: Jason Momoa, Jack Black, Danielle Brooks, Emma Myers, Sebastian Hansen, Jennifer Coolidge, Rachel House, Jemaine Clement, Matt Berry, Jared Hess, Kate McKinnon
Duração: 100 min.

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