Home FilmesCríticas Crítica | Um Completo Desconhecido

Crítica | Um Completo Desconhecido

Mosaico narrativo.

por Luiz Santiago
180 views

James Mangold parece ter encontrado em Bob Dylan um reflexo perfeito de seus contrastes criativos, expressos numa filmografia cheia de nuances polarizadas e personagens intensos, transitando por diferentes gêneros e explorando, a cada novo projeto, figuras complexas ou períodos históricos que buscam desafiar convenções e expectativas. Adaptando livremente o fantástico trabalho de Elijah Wald, Dylan Goes Electric! Newport, Seeger, Dylan, and the Night That Split the Sixties (2015), o cineasta não faz de Um Completo Desconhecido uma cinebiografia convencional, mas um mosaico bem interessante de momentos que tentam decifrar — ou, talvez, reforçar — o mistério de um artista em crescimento. Ao centrar-se nos anos de 1961 a 1965, período em que Dylan passou a dar destaque à guitarra e ao rock, se afastando um pouco mais do folk, o filme mergulha numa revolução cultural e parece seguir os passos do próprio Dylan, temendo, por algum motivo, revelar demais.

A recriação do período é bem chamativa. As ruas de Nova York ganham vida numa fotografia desbotada e em figurinos que marcam, com cores, estampas e penduricalhos, cada sequência musical, enquanto os clubes, os festivais, as interações com outros músicos, os amores e as disputas mercadológicas do jovem artista sugerem o início de um amadurecimento. A atenção aos detalhes, aqui, é meticulosa, e isso vai dos cabelos e maquiagem à direção de arte, revirando camadas de ambientes e comportamentos urbanos dos anos 1960, ao mostrar mobílias, moda, luta pelos direitos civis, crise dos mísseis, guerra do Vietnã, e mentalidade social e política humanista em ebulição. É um conjunto elogiável num filme que, infelizmente, não lhe dá o devido valor, já que o núcleo motivador das composições de Dylan não é totalmente explorado na obra, apenas os trechos das canções nos momentos do fôlego criativo. Fora isso, temos as performances ao vivo, o que é menos importante do que uma narrativa de contexto, afinal de contas, se quisermos ouvir Like a Rolling Stone, Blowin’ In The Wind ou Mr. Tambourine Man, na íntegra, é melhor procurarmos o original.     

Timothée Chalamet desafia a barreira da impessoalidade e a aura de mistério em torno de seu personagem com uma interpretação que privilegia a sugestão sobre a imitação. Seu Dylan é um quebra-cabeça de poses, caras, bocas e silêncios: as performances com a gaita, a risada contida, a postura blasé, de quem parece estar vestindo uma armadura que pesa muitos quilos, e as demonstrações-chave de emoção — tudo isso aparece aqui numa performance que não vai às alturas da dramaturgia, mas é sim muito boa e mostra um artista jovem que respeita sua fonte e se esforça para criar algo único, sem mímicas ou exageros dispensáveis. Em cenas como o embate com Pete Seeger (Edward Norton), Chalamet mostra um pouco mais de nuance, demonstrando um nível bem medido de rebeldia, sarcasmo e manipulação, deixando claro o quanto o artista não queria ser guiado a vida inteira por um mesmo caminho; ele queria transgredir e renovar o gênero que lhe alçou à fama. A direção, contudo, não permite que o ator revele muita coisa, e o recorte de tempo do longa também não abre espaço para transformações muito intensas, de modo que as motivações e os medos do biografado permanecem envoltos em névoa, como se o filme temesse que um mergulho mais profundo arruinasse a lenda.

Já comentei como o uso da música no filme possui uma ambivalência que, ao mesmo tempo, encanta e irrita. As canções interpretadas por Chalamet funcionam menos como pontes emocionais e mais como marcos cronológicos, tendo especialmente o momento do álbum Bringing It All Back Home (abril de 1965) como virada, já que o icônico Highway 61 Revisited (agosto de 1965) é citado nos créditos finais como consequência imediata da “quebra” (sim, há muito exagero no roteiro) do cantor com o folk. Gosto da colocação de voz do ator, aproximando-se do timbre anasalado de Bob Dylan, e também de toda a interação com Monica Barbaro, que interpreta Joan Baez. Por outro lado, o componente romântico da obra, que ganha espaço até demais, parece não conseguir quebrar a barreira daquilo que é mais importante para o filme (a criação da arte musical, as inspirações sociais, o pendor político, a turbulência de ideias da juventude sessentista) ficando num limbo que chega até quebrar o impacto de cenas-chave, como a personagem de Elle Fanning olhando, com algumas lágrimas, o seu amor performar no palco, percebendo que ela não o perde apenas para outras mulheres, mas também para a música. 

Embora com algum exagero, especialmente na fase final (com direito a chiliques infantis e destrutivos dos organizadores do Newport Folk Festival), o roteiro explora a tensão entre o folk (acústico) e o rock (elétrico), mas existe uma entrelinha aí que supera o debate musical e ecoa para a real luta entre tradição e progresso que definiu os anos 1960. Mangold parece indicar que a rejeição a Dylan, naquele evento, simbolizou não apenas uma traição artística, mas a crise de uma utopia diante do individualismo (e note como a relação muito bonita de Dylan com um enfermo Woody Guthrie encarna, noutra seara, essa dualidade). É pena que tudo se concentre em brigas isoladas, sem ter o real peso histórico que teve para o artista e para o seu mundo.

Na primeira metade, com seu ritmo vagamente lento e uma ausência maior de musicalidade, o filme se apoia em clichês típicos das cinebiografias, retardando a construção de uma base narrativa sólida. Somente na segunda hora é que a obra encontra seu compasso, integrando com mais fluidez os momentos musicais à jornada do biografado e apresentando uma progressão de eventos que se comunica de forma mais direta. Mesmo que o desfecho perca parte da força acumulada, a coerência temática persiste, permitindo que o poeta siga livremente por sua trajetória e oferecendo ao espectador a chance de imaginar o percurso que se estende além da tela. Filmar a gênese de um ídolo como Bob Dylan e, simultaneamente, tentar desconstruir sua imagem em um filme que se aventura pelo caminho do meio, foi uma decisão duvidosa. Essa escolha provocou uma oscilação contínua entre desvendar e ocultar o homem por trás do mito. De modo irônico, essa hesitação pode espelhar a essência do artista, contudo, a ausência de um suporte dramático mais robusto acaba por tornar a película mais convencional do que se imaginaria, ofuscando escolhas narrativas e estacionando num território familiar e seguro. Tal caminho, embora tenha seus méritos, impede que o filme alcance a ousadia necessária para, por exemplo, justificar oito indicações ao Oscar. Uma boa produção que parece supervalorizar aquilo que conseguiu entregar.

Um Completo Desconhecido (A Complete Unknown) — EUA, 2024
Direção: James Mangold
Roteiro: James Mangold, Jay Cocks, Elijah Wald
Elenco: Timothée Chalamet, Joe Tippett, Edward Norton, Eriko Hatsune, Peter Gray Lewis, Peter Gerety, Lenny Grossman, David Wenzel, Scoot McNairy, Riley Hashimoto, Eloise Peyrot, Maya Feldman, Monica Barbaro, Dan Fogler, Reza Salazar, David Alan Basche, James Austin Johnson, Joshua Henry, Boyd Holbrook, Elle Fanning
Duração: 141 min.

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais