Tom Cruise tem sido um respiro de criatividade para o Cinema blockbuster na última década, de produções infelizmente cada vez mais apoiadas em efeitos visuais gerados por computador, direção a toque de algoritmo e cenas exageradas e barulhentas. O ator/produtor entende o poder da sua estrela e de seus filmes-eventos para poder insistir num tipo de produção na contramão dos grandes estúdios e fora de moda para longas de alto orçamento: filmes de efeitos práticos, direção extremamente cinematográfica e ação analógica. Podemos até mesmo traçar paralelos das recentes produções de Cruise para o Cinema slapstick de artistas como Buster Keaton e Charlie Chaplin, interessados acima de tudo no espetáculo físico, seja para dar risadas seja para proporcionar tensão.
Top Gun: Maverick adere a essa linguagem, caminhando numa linha entre ser a sequência nostálgica de Top Gun: Ases Indomáveis e ser um dos projetos de façanhas impossíveis de Cruise. A premissa, aliás, parece tirada da narrativa de um Missão Impossível, onde Maverick (Cruise), ainda capitão e um piloto de testes à margem da Marinha, é chamado de volta para o programa TOPGUN para ser professor de um grupo talentoso, tendo que treinar os jovens para uma missão com planos de voos perigosos, altitudes baixas, inimigos mais bem equipados e situações que testam a emoção dos pilotos (e da audiência). O processo narrativo traça similaridades com a história do primeiro filme sobre egoísmo patriótico, rebeldia contra o autoritarismo, competitividade e, claro, interações homoeróticas (a tensão sexual entre os personagens de Miles Teller e Glen Powell é palpável, ainda que não tenha o mesmo nível de fervor da química entre Cruise e Val Kilmer).
Mas estou me adiantando. Quero voltar a falar do espetáculo visual da obra. Alegadamente, todas as cenas de voo foram filmadas em jatos F/A-18 da Marinha dos EUA, para os quais o elenco teve que ser treinado durante um processo árduo. Essa autenticidade é vista em tela, com o cineasta Joseph Kosinski criando emocionantes tomadas aéreas com câmeras de cabine de última geração. O resultado é uma carta de amor à aviação que proporciona uma experiência inovadora e imersiva com o impacto da gravidade em seres humanos, decupagem externa exuberante e acrobacias cheias de adrenalina, tanto nos exercícios de treinamento quanto no intenso clímax da missão – Howard Hughes e seu Anjos do Inferno estariam orgulhosos dessa produção.
Para uma indústria cada vez mais digital, é libertador assistir um filme tão tátil e sensorial como Top Gun: Maverick. Se tivesse que caracterizar a experiência da sala de Cinema, diria que é como estar no simulador visual de voos mais realista do mundo, sentindo os solavancos, as vertigens das manobras de subida e descida, o peso da força gravitacional, e a sensação pura de emoção e risco da zona de perigo (he, he). Além da direção e a belíssima fotografia, é preciso dar mérito para a montagem coerente e dinâmica de Eddie Hamilton, dando uma progressão ágil e dramática com o fluxo e deslocamento entre as cenas da cabine e os meios externos, como também a sonoplastia da produção, dando pano de fundo sensitivo ao estabelecer abalos sonoros com os rasantes dos jatos, o ronco dos motores e até elementos mais simples e imperceptíveis como o som dos controles ou o barulho de metais que mostram o cuidado detalhista da equipe criativa.
Saber que Tom Cruise está fazendo seus próprios voos é mais um aspecto impressionante da produção, e algo que me leva à força motriz da história: a celebração do ator, sua juventude inconsequente beirando os 60 anos e a aparente imortalidade do artista. Nesse sentido, a obra até ganha camadas quase metalinguísticas, mostrando Maverick com a mesma energia, guarda-roupa, habilidades e vícios em adrenalina de quatro décadas atrás; o fato de ele ser um professor que participa da ação e tem os jovens rostos que Hollywood tanto estima apenas circulando seu inacreditável e interminável estrelato; e a sentimental interação de Cruise com um Val Kilmer substancialmente mais velho (a não-participação de Kelly McGillis é algo que também percorre na mente do espectador). Até mesmo vemos suas famosas corridinhas como sinal de que essa sequência é uma forma de homenagem vaidosa à carreira de Cruise, sua aparência e vigor quase intactos, seu lendário empenho artístico e todo o carisma e egomania que marcam seu legado.
Ainda nesse sentido, a narrativa do filme também procura elementos nostálgicos. Temos os mesmos temas dramáticos do original, como amizade, lealdade, romance, rivalidade e, bem, bromance com linhas de erotismo. Também temos recriações de cenas e personagens do filme original, como a abertura na pista de pouso com névoas de calor, close-ups no metal das aeronaves, homens de macacão e Kenny Loggins; a sequência de futebol de praia bastante sensual, filmada com tons carmesins; e com Miles Teller, filho de Goose, e Jennifer Connelly, interesse romântico do protagonista, emulando relacionamentos da obra de 1986. São acenos nostálgicos bem resolvidos e trabalhados num roteiro amarradinho em bons melodramas, dramaturgia simples e antiquada, e conflitos humanos que causam impacto sentimental, especialmente a necessidade de redenção de Maverick em relação à morte de Goose.
Top Gun: Maverick é uma ótima obra e uma excelente experiência cinematográfica que nos faz lembrar da magia prática e sofisticada da Sétima Arte. O cineasta Joseph Kosinski não tem a mesma energia quente das lentes ardentes e sexys de Tony Scott, que transformou a propaganda de recrutamento militar da obra original num erotismo sonhador pelos céus, mas o novo diretor cria sua própria narrativa visual com danças nos espaços azuis e montanhosos, combates aéreos de tirar o fôlego e a intensidade sensorial do que é pilotar nos caças da TOPGUN. O cineasta é seguido por uma produção meticulosa e um roteiro que celebra o primeiro filme, a moda antiga (homens acima de tecnologia), seus personagens e principalmente Tom Cruise, um artista que se mostra eterno.
Top Gun: Maverick – EUA, 21 de maio de 2022
Direção: Joseph Kosinski
Roteiro: Ehren Kruger, Eric Warren Singer, Christopher McQuarrie, Peter Craig, Justin Marks
Elenco: Tom Cruise, Miles Teller, Jennifer Connelly, Jon Hamm, Glen Powell, Lewis Pullman, Ed Harris, Val Kilmer, Jay Ellis, Manny Jacinto, Monica Barbaro, Charles Parnell, Bashir Salahuddin, Danny Ramirez
Duração: 137 min.