Não sei que falta de trabalho levou David Zucker a querer produzir mais um filme de uma franquia que já sinalizava visíveis sinais de decadência desde Todo Mundo em Pânico 4. Reunir um punhado de atores sem critério foi definitivamente uma péssima ideia e um descompromisso com o público fiel da série, que prezava pelo elenco antigo. O constrangimento de ver piadas sendo feitas sem efeito nenhum, ou do resgate de lugares-comuns já excessivamente utilizados nos quatro longas anteriores, é de desanimar qualquer pessoa que tenha acompanhado o desenvolvimento das primeiras películas. A frustração, entre outros motivos, é ver uma comédia que um dia foi tão autoral se tornar boba, com lugares ruins, piadas fora de timing e excesso de um nonsense que muitas vezes não cabe na cena – e pasme! Não é porque há nonsense que a aplicação desta técnica não deva seguir algum rigor formal, muito pelo contrário. Percebe-se que uma das verdades desta produção em específico é que a máxima “menos é mais” se aplica perfeitamente nesta bomba. O que conforta é saber que este filme não estraga a ótima experiência dos anteriores, ficando isolado do resto da franquia.
Ainda que o elenco composto por Anna Faris, Regina Hall, Marlon Wayans e companhia tenha sido convidado para participar desta desta bomba-relógio que é o quinto filme, é notável um desprezo dos atores em relação ao convite, que certamente o rejeitam em nome de suas dignidades. Inclusive, Marlon Wayans tira uma graça com a qualidade de Scary Movie 5, que obviamente é motivo de chacota entre eles. Mesmo que muitos defendam que o enredo se desenrole num universo alternativo, nada escapa ao fato de que ele é mal produzido.
Chegar a este filme depois de ter me deleitado ao longo de quatro excelentes enredos me faz escrever este texto com um gosto amargo na boca. O primo desconhecido de Spike Lee, Malcolm D. Lee, foi escolhido para dirigir o gran finale! É até irônico pensar em um gran finale aplicado a isso, termo este que geralmente é aplicado para grandes encerramentos. Os sete anos intervalares, que se deu entre o lançamento de Scary Movie 4 e a produção de Scary Movie 5, serviu para envelhecer muito mal o tipo de humor que vinha sendo feito até então. O público é outro e envelheceu junto. As cenas sexuais tão mal pensadas não agradam tanto a um público que no início dos anos 2000 estava empolgado com as bizarrices de American Pie, e que Scary Movie tanto explorou de maneira excelente. As piadas com os macacos, o horrível prólogo que faz a paródia de Atividade Paranormal, o primeiro ato inteiro contido de absurdo etc. levam este filme para o fundo do poço. Lugares que poderiam ser tão bem aproveitados, aqui, são jogados no lixo.
A metalinguagem do prólogo, de brincar com as figuras de Lindsay Lohan e Charlie Sheen, não traz nada que seja novidade, aliás, traz embaraço pela falta de cômico na cena inicial, que nem de longe tenta superar o que já havia sido feito. Um grande problema que se nota neste filme é o fato de que muitas piadas precisam ser explicadas, reafirmadas, muitas vezes, pelo próprio personagem que a faz. A propósito, se o humor precisa ser explicado é sinal de que não há uma conexão genuína entre o que se diz e quem recebe. Já sabendo da falta de criatividade do roteiro, muitos insights são explicados dentro da própria narrativa, como na cena da esposa do âncora do jornal, que precisa reafirmar que o está traindo – isso depois da piada já ter sido feita – para que percebamos que a cena tem um toque de humor. Mais ou menos como você fazer uma gracinha e explicar logo em seguida: “Oi, eu fiz uma piada, percebeu?”. Inclusive, lança-se mão da narração dentro do filme, recurso não utilizado anteriormente, o que só evidencia a necessidade deste filme de buscar graça a todo custo, mesmo que explicando suas próprias jocosidades.
A trama dispensa comentários. Uma bagunça paródica, que mistura Atividade Paranormal, Cisne Negro, O Segredo da Cabana, Mama, Planeta dos Macacos, ad infinitum. Assim fica fácil perceber o porquê este filme garantiu indicações para o Framboesa de Ouro e foi o pior colocado em bilheteria de todas as produções da franquia. Algumas cenas são até ingeríveis, como a festa dos aspiradores na piscina, mas que são tragadas pela falta de criatividade do roteiro em geral.
Não há Todo Mundo em Pânico sem a presença de Cindy e de Brenda, fato este que já sinalizei exaustivamente nas críticas anteriores. É uma pena que tenha sido produzido mais um filme, mesmo sabendo dos riscos de fracasso, o que se confirmou com o lançamento. Anacrônico, enfastiado e desnecessário, o filme brinca com a inteligência do espectador. A franquia, que já tinha dito adeus em Scary Movie 4, aqui, definitivamente, coloca uma pá de terra em cima, reafirmando o que todos nós já sabíamos desde o fim da história de Cindy e sua turma. Um final amargo, a franquia se despede com um filme que indiscutivelmente não precisava ter sido feito, e que carregará para sempre a marca do grande equívoco que foi a sua produção e o seu lançamento.
Todo Mundo em Pânico 5 (Scary Movie 5, EUA, 2013)
Direção: Malcolm D. Lee
Roteiro: David Zucker, Pat Proft
Elenco: Ashley Tisdale, Simon Rex, Erica Ash, Molly Shannon, Heather Locklear, JP Manoux, Jerry O’Connell, Charlie Sheen, Lindsay Lohan, Snoop Dogg, Mac Miller, Mike Tyson, Kendra Wilkinson, Terry Crews
Duração: 86 min.