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Crítica | The Orville – 2X01: Ja’loja

por Giba Hoffmann
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  • Contém spoilers. Leiam, aqui, as nossas críticas dos outros episódios.

Mesmo após completar uma bem-sucedida primeira temporada, uma das coisas mais interessantes a respeito de The Orville continua a ser a expectativa a respeito das possibilidades do programa em explorar seu misto inspirado de gêneros sob ângulos novos e inusitados. Provavelmente é uma maldição da qual o seriado jamais se verá livre — mas é um preço justo a se pagar pelo magnetismo imediato que o projeto empresta ao evocar a imagética e estrutura dos bastiões televisivos do “Trek vintage”. Ao invés de estrear este segundo ano com uma nova aventura sci-fi aos moldes das vistas do ano anterior, a produção adota um rumo inesperado e traz um novo capítulo na estrutura “bottle episode”, ou seja, focado no elenco recorrente e limitado praticamente o tempo todo aos cenários fixos da U.S.S. Orville.

Tomando como eixo central mais um evento da fisiologia e cultura únicas do sempre divertido Bortus (Peter Macon), Ja’loja detém-se em uma exploração de personagens que consegue, ao mesmo tempo, reintroduzi-los para uma nova audiência e aproveitar a construção feita na temporada anterior para um uso mais relaxado e confiante de suas características e “tiques” de roteiro individuais. Tonalmente, a série mantém-se muito interessante: ainda que minha preferência seja por episódios com aventuras mais tradicionais, me surpreendi com o quanto me vi conhecendo as  características individuais do elenco. Nesse ponto, o capítulo não parece ter apenas pouco mais de 10 episódios de bagagem para se apoiar, iniciando com a confiança e foco típica de séries já mais veteranas.

O romance malventuroso entre o Capitão Ed Mercer (Seth MacFarlane) e a Comandante Kelly Grayson (Adrianne Palicki) continua a mover o plot central — o que pode ser um ponto negativo instantâneo para quem espera mais Trek e menos Friends do programa. Felizmente, a subtrama se vale bem da caracterização “pé-no-chão” de seus protagonistas. Contrastando com os arquétipos mais aventurescos de Trek, a tripulação da Orville é explorada frequentemente pelo ângulo humano. É como se acompanhassemos uma tripulação inteira de Doutores McCoy: profissionais treinados e capazes que, no entanto, reagem de forma extremamente prosaica às situações extravagantes com as quais se vêem às voltas.

A produção continua a ter sucesso em equilibrar temáticas típicas de sitcom com sua ambientação única. No campo do humor, o roteiro de MacFarlane continua  a me agradar mais na frente do nonsense do que na sátira. Toda a comédia em torno do tema do romance passa por terrenos batidos demais, e se salva apenas pela química dos personagens. Por outro lado, o roteiro investe em várias piadas situacionais bem construídas, com entregas rápidas e inesperadas que não chocam, mas fazem rir. A interação entre Malloy (Scott Grimes) e LaMarr (J Lee) permanece afiada, e faz um bom uso do setting para entregar momentos hilários. A cena em que a tripulação se informa a respeito do ritual de Ja’loja (assim como a maioria das cenas com Bortus, na verdade) é especialmente divertida: um humor leve e até infantil que abre mão da comédia de impacto em favor da familiaridade com os personagens — o segredo de toda sitcom quando consegue se encontrar, se alguém me perguntar.

A grande surpresa fica por conta da exploração dramática bem estabelecida através dos diversos núcleos. A estranha relação entre o alienígena sintético Isaac (Mark Jackson) e a Doutora Claire Finn (Penny Johnson Jerald) rende momentos genuinamente adoráveis para a dupla. Ele, aparentemente realizando uma etnografia movida pela pura curiosidade despreocupada; ela, tendo que lidar com os desafios da maternidade solo no contexto único da jornada espacial. A dupla conflui de forma inusitada e interessante, que aproveita ainda para expandir o cenário da Orville e nos dar um pouco mais de noção da vastidão de sua tripulação.

Ainda que o capítulo tenha sucesso como reintrodução comédico-dramática dos personagens, equilibrando bem seus vários núcleos para colocar a temporada em movimento sem grandes digressões, sua estrutura acaba sendo desfocada o suficiente para que sintamos falta de um eixo de desenvolvimento central mais preciso. Como um mosaico de interações cotidianas entre a tripulação, o episódio funciona muito bem, mas a ausência da escolha por uma temática central mais substanciosa — como ocorreu em Firestormótimo bottle episode da temporada passada — faz com que tenhamos uma visão apenas panorâmica de nossa tripulação.

Prova disso é que o bizarro ritual de urinação de Bortus infelizmente acaba relegado a escanteio, e embora os elementos de sci-fi sejam bem aproveitados na construção de momentos comédicos, é difícil não enquadrar o capítulo nas estruturas de um “episódio filler. Se a intenção era (re)captar o interesse do espectador, no entanto, Ja’loja consegue se sair relativamente bem. Vejamos para que territórios desconhecidos (ou nem tanto assim) a U.S.S. conseguriá nos levar em seguida!

The Orville – 2X01: Ja’loja — EUA, 30 de dezembro de 2018
Direção: Seth MacFarlane
Roteiro: Seth MacFarlane
Elenco: Seth MacFarlane, Adrianne Palicki, Penny Johnson Jerald, Scott Grimes, Peter Macon, Halston Sage, J. Lee, Mark Jackson, Chad L. Coleman, Will Sasso, Mike Henry, Chris Johnson, Jason Alexander
Duração: 44 min. (cada)

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