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Crítica | The Mandalorian – Chapter 4: Sanctuary

por Ritter Fan
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Desde os primeiros segundos de projeção de Sanctuary, que mostra os fazendeiros humildes de uma criação de krill azul sendo atacada por bandoleiros klatooinianos – raça que já deu as caras no Universo Star Wars um bom número de vezes -, fica evidente que o que se seguirá é uma adaptação do magnífico clássico Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa, ocidentalizado diretamente duas vezes com o título Sete Homens e um Destino, primeiro por John Sturges (que ganhou continuações) e, mais recentemente, por Antoine Fuqua. Considerando a inspiração de George Lucas nos filmes de samurai (notadamente os de Kurosawa) para criar suas histórias, a homenagem foi mais do que merecida, mas não, como muita gente pode achar, a primeira vez que ela é feita no contexto da franquia, já que essa honra para sempre ficará com Roy Thomas, Howard Chaykin e Don Glut no arco imediatamente posterior à adaptação em quadrinhos de Uma Nova Esperança pela Marvel Comics, nos primeiros meses de 1978, inaugurando o Universo Expandido.

Mas, diferente dos quadrinhos, que se desviaram tremendamente do material fonte a partir da metade, aqui Jon Favreau mostra completa reverência, condensando a narrativa original de 207 minutos em menos de 40 e mesmo assim conseguindo construir uma história coerente e bem estruturada, ainda que completamente aguada e de pegada bem leve, talvez a mais leve da série até agora, quase resvalando na categoria conto-de-fadas. Bryce Dallas Howard, a segunda mulher a dirigir algo da franquia e que com seu pai Ron faz a primeira dupla pai-e-filha a trabalhar na galáxia muito, muito distante, comanda o episódio também com um olho na obra original nipônica, mantendo a mesma atmosfera e a mesma progressão cadenciada que aprendemos a amar, mas sempre imprimindo a velocidade necessária e fundindo muito bem a mitologia Star Wars com a clássica história dos fazendeiros oprimidos por uma força invasora (de certa forma, ironicamente, espelhando exatamente a mesma relação entre os krill e os fazendeiros…).

O mandaloriano sem rosto, carregando o bebê Yoda a tira-colo, por acaso acaba no tal planeta, cujo nome é Sorgan, e logo troca socos e chutes (e lança-chamas) com a ex-rebelde, agora mercenária, Cara Dune (Gina Carano, que já tem “nome Star Wars“, e não precisava de outro), somente para ficarem melhores amigos minutos depois como manda o manual. Em seguida, ao fazer manutenção na Razor Crest, Mando recebe a esperada visita de fazendeiros desesperados pedindo sua ajuda e ele acaba recruta a mercenária para ajudá-lo, já que o lugar remoto onde os necessitados moram pode fazer vez do santuário do título que tanto o caçador de recompensas quanto Cara precisam. Lá chegando, a dinâmica é a clássica: a ameaça é maior que esperado – aqui com direito a um ameaçador AT-ST -, Mando e a fazendeira Omera (Julia Jones) se aproximam, o fofíssimo bebê Yoda fica fazendo fofices e brincando com as crianças locais, a pancadaria come solta e tudo acaba bem.

No lugar de ações grandiosas e surpreendentes como vimos em The Sin, agora tudo é mais devagar com o objetivo primordial de abordar o grande elefante na sala: o porquê de o mandaloriano não tirar o capacete. Acaba que a resposta é muito simples, com um sistema de honra entre iguais que pode não fazer lá muito sentido, mas que funciona para os propósitos bem rasinhos da série, que é trabalhar uma narrativa muito mais visual e episódica do que uma história com qualquer traço de profundidade ou construção de personagem que vá além do óbvio. Afinal, a possibilidade de Mando ficar no vilarejo, com seu capacete quase sendo retirado por Omera, somente para tudo ser frustrado por seu “caminho” e pela descoberta de outro caçador de recompensas na região, é o clichê do clichê básico e eterno e, portanto, mais do que esperado desde que a jovem aparece salvando sua filha no breve prelúdio do episódio. Simpático, sem dúvida, mas talvez menos do que pudesse ser.

A reprodução, em menor escala, da Batalha de Endor, só que sem os Ewoks (caso contrário o AT-ST não duraria 10 segundos porque aqueles ursinhos são ossos duros de roer), é, lógico, o ponto alto do episódio e o andador imperial é muito bem utilizado como força ameaçadora graças à fotografia noturna que faz o melhor uso possível do holofote para quebrar a escuridão e dos “olhos” vermelhos monstruosos. No entanto, leveza é a palavra de ordem e tudo é muito rasteiro e simples, sem aparentemente uma morte sequer do lado dos aliados de Mando, algo que retira toda e qualquer tensão que pudesse ser construída e resultando em um produto significativamente disneyficado, o que é estranho já que, logo no episódio piloto, o mandaloriano corta um inimigo em dois usando uma porta, ainda que sem sangue e sem aparecer nada, evidentemente.

Considerando que estamos já na metade da temporada, gostaria muito que as aventuras auto-contidas ficassem em segundo plano e que a série fosse mais do que “todos atrás de Mando e filhote” o tempo todo. Além disso, espero que os personagens que ficaram por aí, especialmente IG-11, Kuiil e Cara, retornem mais para a frente de alguma maneira (apostaria em um team-up para salvar a vida do protagonista), sob pena de a história ficar fragmentada demais e arriscando perder seu vigor.

The Mandalorian – Chapter 4: Sanctuary (EUA, 29 de novembro de 2019)
Showrunner: Jon Favreau
Direção: Bryce Dallas Howard
Roteiro: Jon Favreau
Elenco: Pedro Pascal, Gina Carano, Julia Jones, Isla Farris
Duração: 39 min.

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