Primeiramente, eu confesso — preste atenção nesta palavra — que não assisti a Boa Noite, Mamãe, filme anterior de maior sucesso da dupla Veronika Franz e Severin Fiala. Contudo, ao ler a crítica do Luiz Santiago, disponível aqui no site, fiquei assustado. Isso porque, The Lodge, ao que parece, é quase como uma repetição do mesmo exercício de gênero com algumas alterações pontuais no roteiro.
No longa de 2014, a trama acompanha dois irmãos que vivem em uma casa isolada e passam a acontecer coisas estranhas envolvendo a mãe daqueles garotos. Agora, em The Lodge, os irmãos Aidan (Jaeden Martell) e Mia (Lia McHugh) são obrigados a passar alguns dias com a madrasta, Grace (Riley Keough), em uma casa isolada no meio do nada. Bem, e o que tem de tão ruim nisso?
Logo no começo da história, Laura (Alicia Silverstone), a mãe biológica, comete suicídio após não aceitar o divórcio com o pai das crianças, Richard (Richard Armigate). Mostrando uma incrível sensibilidade (contém ironia), o recém-viúvo anuncia o casamento com Grace, menos de 6 meses depois do acontecido. Portanto, tal estadia no meio do nada — a não ser por gelo e neve — seria para aproximar todos. E para completar, os enteados descobrem que a madrasta esteve envolvida com um culto religioso suicida no passado, no qual ela foi a única sobrevivente.
Voltando a uma das primeiras palavras deste texto, a culpa católica é um sentimento que rege todo o andamento da trama. The Lodge é como uma grande expiação para a personagem de Keough, que ainda é assombrada pelo passado, mas busca seguir em frente. Para isso, a dupla Franz e Fiala recorre a diversos simbolismos remetendo a ideia de que há uma força maior regendo e controlando a história.
Insistentemente, a câmera busca uma pintura da Virgem Maria que, com seus olhos, parece estar sempre julgando Grace. Mais do que isso, pois a protagonista sente a presença daquele quadro. Seria como se ela sentisse a obrigação de ser aquela mulher santa e incólume para os filhos de seu marido, ao passo que eles lhe culpam pela morte da mãe. No mesmo sentido — e similarmente ao filme Hereditário — a narrativa principal vai sendo interrompida para mostrar a casa de bonecos de Mia, que remete a essa ideia de que eles são peões de um jogo maior. Já em uma sequência onírica, Grace encontra uma casa em formato de cruz. A culpa católica está por todo lado.
É interessante como The Lodge usa seu visual gélido e vazio para criar esse senso de purgatório no qual a personagem deve pagar por seus pecados, com uma cinematografia desoladora que se perde em um horizonte branco de neve. Todavia, de nada adianta esse vasto ambiente e a boa noção espacial dos cômodos da casa que Franz e Fiala possuem, se eles não exploram tais possibilidades. A principal tática do filme se limita a um exercício mental do público, que passa a questionar se a personagem de Keough está ficando louca ou de fato há algo sobrenatural acontecendo, através de acontecimentos em pequena escala.
Assim, The Lodge insiste neste jogo dúbio entre madrasta e as crianças, mas acaba se perdendo em uma repetição exaustiva. Por mais que Riley Keough faça o possível, o tédio toma conta diante da passividade do filme e sua própria covardia em potencializar seus elementos de terror. Afinal, há uma cena em que os protagonistas chegam a assistir The Thing. Obviamente, não há como comparar os dois filmes que só possuem em comum o fato de se passarem na neve.
Para piorar, o longa recorre a uma reviravolta que expõe sua contradição. Em um filme que a mise-en-scène remete ao sobrenatural e uma conexão com o divino, como pode tudo ter uma explicação bem racional? Aliás, é revelador como os pontos fortes do longa estão tanto no início quanto no final, quando a dupla de diretores parece abraçar, sem medo, um caminho mais sombrio e explícito. Uma pena que boa parte do tempo fica no campo da sugestividade, no qual belos enquadramentos não significam nada.
Pelo menos, acho interessante que The Lodge vá na direção de um certo sadismo punitivista em seu terceiro ato. Nesta história, não há um indivíduo que carregue a cruz pelo pecado de todos. No fim, todos são pecadores, e todos pagam por isso. Até nós, espectadores, que precisamos assistir a um tedioso filme por boa parte do tempo.
The Lodge (The Lodge) – Estados Unidos, Canadá e Inglaterra, 2019
Direção: Veronika Franz, Severin Fiala
Roteiro: Sergio Casci, Severin Fiala, Veronika Franz
Elenco: Jaeden Martell, Riley Keough, Richard Armitage, Alicia Silverstone, Lia McHugh
Duração: 100 min.