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Crítica | Sugarcane (2024)

Dor sem fim infligida aos que não podem se defender.

por Ritter Fan
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Spotlight: Segredos Revelados abordou a história real do escândalo da pedofilia institucional da Igreja Católica em Boston pelo ponto de vista dos jornalistas que investigaram a aterradora situação. É um filme difícil de assistir não só pelo fato em si, mas pela inação e silêncio de uma instituição religiosa que simplesmente fechou os olhos para um problema sistêmico. Sugarcane, documentário dirigido por Emily Kassie e Julian Brave NoiseCat, enfoca o mesmo problema pela mesma instituição, só que na escola residencial – uma espécie de internato – de St. Joseph, no Canadá, em que diversas covas não marcadas foram encontradas com restos humanos de crianças até então desparecidas e que aponta para uma vastidão ainda não explorada de situações semelhantes nas outras centenas de escolhas semelhantes administradas pela Igreja Católica que existiam na América do Norte até pouco mais da metade dos anos 1990 e tudo sob o ponto de vista dos sobreviventes e de suas famílias, tornando a obra muito mais pessoal e próxima.

Se a lógica por trás da mera existência dessas escolas criadas no final do século XIX já é revoltante, ou seja, a reprogramação de crianças indígenas para separá-las de seu legado e “integrá-las” à sociedade branca dominante, ela não é exatamente uma novidade para quem tem um mínimo de conhecimento histórico e sensibilidade. Essa, porém, é a denúncia subsidiária, que, de certa forma, está “embutida” no que é desvelado aqui. A questão é que, em razão de as comunidades indígenas terem sido dizimadas no continente (e não só no continente americano, claro) e submetidas à toda sorte de privações, elas simplesmente não importam, não povoam o imaginário popular, o que cria terreno fértil para toda sorte de abusos. E, quando falo de abusos, quero dizer mesmo o físico – o estupro de homens e mulheres e, no segundo caso, o nascimento de crianças que são a prova do crime e, portanto, precisam ser eliminadas – que gera cicatrizes psicológicas por gerações, destroem famílias e contribuem para a submissão das nações indígenas e outras em semelhante estado de precariedade. Assassinos da Lua das Flores, também baseado em fatos históricos, mostrou o que aconteceu com nativos que, tendo sorte dentro de toda a tragédia de sua existência, mesmo assim foram submetidos e novamente massacrados pelo homem branco, Sugarcane fala daqueles que em momento algum tiveram sequer o resquício de sorte, o que torna tudo mais agoniante, de partir o coração.

Como a abordagem é de cunho pessoal, a escolha da estrutura do documentário segue essa lógica e não apresenta o caso de maneira fria e distante. Ao contrário, Sugarcane é um relato que já deixa evidente seu propósito no início e, a partir daí, trabalha com vagar as narrativas dos sobreviventes, focando principalmente em três grupos, por assim dizer. O primeiro deles é o que é encabeçado por Willie Sellars, chefe da Williams Lake First Nation, na Reserva Sugarcane, que lidera e organiza as investigações e escavações, da mesma maneira que é a figura pública principal diante da imprensa. Nesse primeiro grupo, incluem-se, também, os diversos sobreviventes da escola, homens e mulheres já na terceira idade que tiveram suas vidas profundamente marcadas pelos horrores que vivenciaram por lá ao longo de anos. O segundo é formado quase que exclusivamente por Rick Gilbert e Anna Gilbert, o primeiro ex-chefe da nação indígena sob questão e a segunda sua amável esposa, ambos com a missão de ir até o Vaticano para ter uma audiência com o Papa Francisco sobre o assunto. Finalmente, o terceiro grupo é formado pela família NoiseCat, do codiretor do documentário, notadamente ele próprio e seu pai Ed Archie Noisecat em uma jornada de reconciliação e de compreensão do que ocorreu já que Ed abandonara seu filho Julian ainda pequeno.

Essa divisão é uma forma inteligente e poética – no que de poesia pode ter um assunto tão pesado, tão exaustivo só de assistir – de se trabalhar o mesmo assunto sobre três óticas, o close-up generacional na família NoiseCat, o plano médio na investigação na área da escola e, finalmente, o plano aberto no Vaticano, tudo tendo profundas raízes no abuso sistemático e por várias gerações – por todos os padres diretores da escola, todos, seja na posição ativa de molestadores, seja na de negligentes que simplesmente deixaram tudo acontecer diante de sus olhos – de uma infinidade de crianças desprotegidas, afastadas de suas famílias e comunidade que, por razões óbvias, não tinham força e nenhum tipo de apoio por quem quer que fosse para sequer levantar objeções. Com exceção de uma certa confusão inicial causada por um começo razoavelmente críptico sobre a função exercida por cada pessoa enfocada, algo que leva uns 15 minutos para assentar, a direção de Emily Kassie e Julian Brave NoiseCat é inspirada, compassadamente aprofundando a questão, mas sem jamais se afastar da comunidade e de suas tradições e, mais do que isso, elegantemente esquivando-se de apontar dedos com veemência, deixando as imagens e as gravações falarem por si só, como é o caso da inacreditavelmente patética audiência com o Papa e com a poderosa e consideravelmente honesta (dentro do possível) conversa que Rick tem em seguida com Louis Lougen, o homem atualmente responsável pelas missões.

O que é mais revoltante, depois que os créditos começam a subir, é que Sugarcane não é o único, mas sim mais um relato de atos criminosos sistemáticos de membros daquela que é a mais poderosa e rica instituição religiosa no planeta que simplesmente se recusa a tomar medidas sérias e eficazes contra o que é evidente para quem quiser ver. Igualmente, Sugarcane não é o único, mas sim mais um relato de atos criminosos cometidos contra nações indígenas que governos dos mais poderosos e ricos países do mundo se recusam a tomar medidas sérias e eficazes que ajudem pelo menos a reduzir a dor infligida há centenas de anos e que, diferente do que os mais divorciados da realidade teimam em afirmar, continuam até os dias de hoje, em pleno século XXI. Até quando?

Sugarcane (Idem – Canadá/EUA, 2024)
Direção: Emily Kassie, Julian Brave NoiseCat
Elenco: Willie Sellars, Charlene Belleau, Whitney Spearing, Ed Archie Noisecat, Julian Brave NoiseCat, Kyé7e, Jean William, Rosalin Sam, Rick Gilbert, Anna Gilbert, Larry Emile, Martina Pierre, Laird Archie, Justin Trudeau, Louis Lougen, Wesley Jackson, Cecilia Paul
Duração: 107 min.

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