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Crítica | Sherlock Holmes: O Cão dos Baskervilles, de Arthur Conan Doyle

Presas perigosas.

por Luiz Santiago
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Originalmente serializado na The Strand Magazine entre agosto de 1901 e abril de 1902, O Cão dos Baskervilles nos traz um caso assustador para o detetive de Arthur Conan Doyle, indo além do típico romance policial, porque combina a lógica da investigação com um mistério impregnado de superstições vitorianas, dando um ar de terror e algo de sobrenatural ao caso. Essa escolha sombria do autor enriquece o enredo com muitas nuances psicológicas e inúmeros ícones narrativos, permitindo que diferentes análises simbólicas façam as mais distintas referências ao significado do cão, do pântano, do prisioneiro que escapou, da maldição familiar e de tantos outros componentes significativos que temos no livro. Ainda que, em certos momentos, o ritmo da aventura se alongue desnecessariamente com descrições minuciosas das lendas e dos cenários de Dartmoor, esse é o tipo de história que precisa de um cozimento mais lento, pois existe algo para além do mistério investigativo que o autor pretende destacar. Embora eu não seja muito fã desse processo (a não ser que exista uma compensação muito grande e amplamente contextualizada ao núcleo dramático, como aconteceu em Um Estudo em Vermelho, mas não se repete aqui), entendo-o como menos problemático do que outras falhas que encontramos no desenvolvimento da trama. 

Com o foco deslocado para o Dr. Watson, Doyle cria um contraste progressivamente incômodo entre a genialidade distante de Holmes e a visão mais humana, vulnerável e meio boba do médico (que, pelo menos, não é pior que a do insuportável Hastings, de Agatha Christie), afastando o investigador de cena durante a maior parte do livro e fazendo com que o leitor acompanhe o processo de investigação através de cartas e inserções em diários. Confesso que experimentos assim me chamam atenção, mas creio que só funcionam verdadeiramente se ocupam uma parte menor do processo, o que não é o caso de O Cão dos Baskervilles. Holmes está fora de cena em praticamente todo o livro, de modo que as informações expostas pelo olhar de Watson entram numa espiral de repetição e, em momentos realmente importantes para a investigação, terminam perdendo a graça por não terem os detalhes sherlockianos. E tanto é assim que a primeira parte do livro, quando a dupla está junta, a força dos diálogos e a riqueza do processo mental de Holmes encantam o leitor. O livro realmente começa a enfraquecer no momento em que o pântano e suas particularidades tomam conta da narrativa.  

Deve-se, contudo, dar os devidos créditos à força da ambientação. A paisagem inóspita de Dartmoor se torna um personagem próprio, onde cada neblina e cada ruína do Neolítico carregam um significado maior, pelo menos no contexto de mistério em relação ao horrendo cão e à maldição familiar que tanto interessou Holmes. Essa atmosfera repleta de referências a um passado distante (único ponto onde o eco da lenda familiar tem função dramática genuinamente boa), cria um ambiente envolvente que, infelizmente, não é bem aproveitado a longo prazo, fazendo com que o ritmo da narrativa oscile entre o contemplativo e o investigativo, com muito tempo morto para um romance com tanta coisa interessante para explorar. 

Doyle aproveita a intriga familiar macabra para trabalhar a decadência de uma aristocracia rural frente aos avanços da modernidade e à valorização da razão; uma linha que costura sutilmente o drama, colocando a maldição dos Baskervilles como último suspiro de uma Era que estava terminando. Sir Henry, o herdeiro, encarna a luta para se libertar de um legado sombrio, enquanto a figura de Stapleton encarna as ambições mais desprezíveis, disfarçadas na figura de um naturalista solícito que, nos bastidores, manipulava a lenda de um cão demoníaco e tinha por objetivo usurpar uma fortuna. É pena que o desfecho do personagem seja tão anticlimático e apressado, além de insatisfatório, se considerarmos tudo o que ele fez e o trabalho do processo de investigação, que certamente merecia um encerramento mais azeitado. 

Encontramos em O Cão dos Baskervilles uma investigação que só é meticulosa quando o principal assunto do livro ainda não está em cena. O distanciamento de Sherlock por tanto tempo é, talvez, o maior impasse em relação ao nosso interesse pela obra, que ainda consegue se manter acima de uma linha elogiável de qualidade, embora inferior àquilo que esperamos de uma narrativa com Sherlock Holmes. O romance nos convida a repensar a tênue linha que separa o extraordinário do comum, mostrando que, no equilíbrio precário entre lógica e lenda, há espaço para uma boa história cheia de símbolos e críticas sociais bem integradas. Uma história que só se completará de verdade se os personagens certos estiverem em cena nos momentos certos, algo que, para nossa tristeza, não é a tônica aqui.

O Cão dos Baskervilles (The Hound of the Baskervilles) — Reino Unido, 25 de março de 1902
Autor: Arthur Conan Doyle
Ilustrador original: Sidney Paget
Capa original: Alfred Garth Jones
Publicação original: serializado na The Strand Magazine entre agosto de 1901 e abril de 1902
Editora original: George Newnes Ltd
Edição lida para esta crítica: Zahar (outubro de 2010 – Coleção Clássicos Zahar)
264 páginas

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