Baseado no romance homônimo de Colson Whitehead — obra vencedora do Pulitzer –, O Reformatório Nickel (Nickel Boys) bebe tanto da ficção literária quanto de uma realidade perturbadora: os crimes da Dozier School for Boys, reformatório na Flórida onde décadas de violência institucionalizada (com denúncias investigadas e comprovadas de espancamentos, estupros, torturas e assassinatos cometidos contra os internos) ocorreram sob a máscara da “reeducação de párias sociais“. Nas mãos do diretor RaMell Ross, que aqui nos surpreende em seu segundo longa, esse material foi explorado e apresentado de uma forma que ninguém esperaria. O artista cria um forte produto emotivo e visualmente experimental, convidando-nos a encarar as atrocidades apresentadas, mesclando o terror íntimo de dois internos na fictícia Nickel Academy com as marcas profundas da opressão racial nos Estados Unidos. E tudo isso acontecendo nos anos 1960, auge das lutas pelos direitos civis no país, adicionando uma ironia afiada que torna a narrativa ainda mais impactante.
Optando pela câmera subjetiva, o diretor invade a intimidade dos protagonistas e nos faz estranhar a ocultação do rosto de Elwood (Ethan Herisse) por uma boa parte do tempo, criando uma sensação de identificação que pode ser interpretada de diferentes formas, dependendo do recorte do espectador. Com o tempo, compreendemos a intenção do roteiro em fixar um antagonismo de personalidade entre Elwood e seu amigo Turner (Brandon Wilson). Vemos opostas a placidez quase ingênua de um, ao realismo trágico e grande cinismo do outro, que já passou por experiências físicas e psicológicas que o colocaram em uma posição de constante defesa e desconfiança. É considerando essa base que a narrativa em primeira pessoa e levemente alinear retrata o sofrimento, e, de forma bastante inovadora (mas cansativa, a longo prazo) estabelece uma batalha entre esperança e desilusão, revelando a fé nas promessas dos discursos de Martin Luther King Jr. em oposição pragmatismo cheio de cicatrizes e compreensão quase derrotista da situação de classe, raça, escolaridade e aceitação social do indivíduo, uma conjuntura que se altera no decorrer da fita e tem seu ponto máximo de virada na sequência final.
Ross intercala esse ponto de vista íntimo (ou invasivo?) da câmera com imagens que rompem com o encadeamento convencional das cenas e, muitas vezes, puxa o espectador do mergulho no enredo – embora eu precise defender que esse afastamento depende muito do espectador. Um fato é que este uso, de maneira contínua e com imagens às vezes tão alheias à realidade imediata que observamos na tela, pode distrair e quebrar um pouco do foco naquilo que verdadeiramente importa em diferentes fases do argumento. Ao mesmo tempo, é justamente essa abordagem que faz o filme ser diferente, ter uma narrativa inovadora e uma abordagem que, sabiamente, não opta pela exposição gráfica das atrocidades. Somente algumas coisas ligadas ao sofrimento de Elwood, Turner e outros jovens nos são mostradas. O restante dos crimes são simplesmente são sugeridos, numa conjunção sólida entre direção, roteiro, fotografia e trilha sonora, que criam uma atmosfera precisa e dão toda a base para que o espectador entenda a materialidade da tragédia, seguindo, então, coerentemente, pelo mesmo fio da meada, de volta à trama central.
O longa é poderoso em suas sugestões, metáforas, significados líricos e leque para discussões de personalidade, administração de instituições que lidam com pessoas; natureza humana e o pêndulo de métodos coercitivos à la Vigiar e Punir. Com tudo isso arquitetado, os roteiristas erguem um drama que pode ser tanto um “estudo de personagem” quanto uma análise de ambiente e contexto histórico, incluindo, a partir de certo ponto, um dos protagonistas no futuro, abrindo um interessantíssimo caminho de questionamentos e suposições por parte do espectador. Em dado momento, algumas cenas (como o encontro de Elwood com um antigo amigo, num bar) parecem segurar demais o enigma, numa fase do filme em que os diálogos e a percepção geral já deveriam desabrochar e levar o longa à sua resolução. Consequentemente, a reviravolta (que não é uma exata surpresa, para quem realmente prestou atenção em quem, de fato, abraçou a avó Hattie) na cena posterior à fuga. Ainda assim, a constatação é poderosa e, novamente, traz uma lufada de dor para o público. Lamento que o diretor acabe resolvendo tudo muito rápido nessa etapa, quebrando a força da confirmação (especialmente na apresentação dos documentos), mas o seu ponto de chegada é sólido e, novamente em perspectiva, nos faz ver a incorporação dos sonhos de uma vida que se foi… em uma identidade roubada que ficou, transformando o sobrevivente ao empurrá-lo para um caminho de luta social.
Sem simplificar o horror e assumindo a complexidade de uma abordagem que foge às narrativas convencionais sobre o tema, O Reformatório Nickel pode ser lido como um poema visual complexo e poderoso sobre resistência, domínio violento, luto, amizade e superação engajada. A obra revisita a memória histórica da violência institucional, da fragilidade das identidades pessoais e as muitas cicatrizes deixadas por escolhas feitas num mundo estruturalmente hostil. RaMell Ross mistura subjetividade crua com intervalos quase oníricos, não apenas humanizando as vítimas de um sistema desumano, mas também desafiando a audiência a confrontar esse legado de opressão… que ainda ecoa. Se, por um lado, as escolhas narrativas diferentonas diluem momentaneamente o impacto pretendido, o filme triunfa ao transformar dor individual em reflexão coletiva, usando a câmera como condensadora de percepções dessa realidade ao longo da história, uma testemunha silenciosa de corpos e sonhos despedaçados. Quantos Elwoods e Turners ainda seguem à margem, desconhecidos da história oficial, da história registrada, investigada e divulgada? O diretor aponta para a esperança de dias melhores e sugere algumas respostas. Mas preservar aquele olhar único – quase sem rosto – que observa o mundo com tanta atenção e leveza, mesmo quando é brutalmente destruído, exige uma luta que quase ninguém quer travar.
Nickel Boys (EUA, 2024)
Direção: RaMell Ross
Roteiro: RaMell Ross, Joslyn Barnes, Colson Whitehead
Elenco: Ethan Cole Sharp, Sam Malone, Najah Bradley, Aunjanue Ellis-Taylor, Jase Stidwell, Legacy Jones, Ethan Herisse, Jimmie Fails, Ky’druis Follins, Gabrielle Simone Johnson, Peter Gabb, Bill Martin Williams, Ellison Booker, Taraja Ramsess, Zachary Van Zandt
Duração: 140 min.