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Crítica | Lírio Partido (1919)

por Fernando Campos
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É assustador que D.W. Griffith, diretor do repulsivo O Nascimento de Uma Nação, seja o responsável pelo belo Lírio Partido. Enquanto um prega o racismo da forma mais vil possível, o outro condena a violência, a xenofobia e prega o amor acima de tudo. Publicamente, o realizador nunca se mostrou arrependido pela produção de nenhum filme. Portanto, é improvável que Griffith tenha revisto suas crenças. Isso mostra o quão diversificada é a filmografia do realizador, seja em assuntos ou gêneros.

O fato é que somente um diretor com o talento dele poderia produzir, em 1919, um longa com tamanha dramaticidade, profundidade temática e virtuosismo técnico. Audacioso levando em conta a época, Lírio Partido apresenta uma relação de carinho entre Cheng Huan (Richard Barthelmess), um imigrante chinês budista, e Lucy Burrows (Lillian Gish) uma garota maltratada pelo pai, Battling Burrows (Donald Crisp).

Apesar da premissa simples, Griffith utiliza a trama para debater temas complexos. Logo nos primeiros minutos, o longa cria uma relação entre o vilão e o público, trazendo no letreiro: “podemos acreditar que não existem homens como Battling Burrows, sempre dispostos a chicotear os indefesos. Mas nós mesmos não usamos palavras e ações duras? Talvez, as ações de Burrows sejam um aviso”. Portanto, de início, o diretor contesta qualquer visão resistente do espectador, tirando-o da zona de conforto e preparando para os assuntos do filme.

Aliás, o roteiro acerta na apresentação dos três personagens principais de forma direta e eficiente. Chang surge como um rapaz respeitoso e silencioso; Battling aparece como um brutamonte irritado; e Lucy se mostra uma garota meiga e inocente. O desenvolvimento ágil dos personagens permite uma atenção maior com os temas, evitando que o roteiro perca seu foco. Ainda assim, é uma pena que o texto não tenha explorado minimamente a adaptação do chinês em Londres, promovendo um salto de anos na história que prejudica o arco dele.

Aqui, os protagonistas servem muito mais como ferramenta para o roteiro realizar suas abordagens do que para serem explorados. A diferença no tratamento que Lucy recebe do pai e do chinês não permanece na esfera pessoal, mas representa a diferença entre uma cultura que cultua a violência, a ocidental, e uma que valoriza o equilíbrio, oriental. Não a toa, Battling é um vitorioso e celebrado lutador de boxe, mostrando como aquela sociedade apóia e se diverte com a brutalidade.

Esses vínculos entre os personagens funcionam também por causa do trabalho dos atores, especialmente os intérpretes de Lucy e Battling. Lillian Gish impressiona com os olhares expressivos, mostrando que, por trás de tanta tristeza, há uma garota sensível e boa. Já Donald Crisp constrói um vilão clássico, essencialmente ruim e irritante, utilizando de maneira inteligente o estereótipo do machão em sua representação. Em contrapartida, a escolha de Richard Barthelmess para viver Cheng é problemática em dois aspectos. Além do erro de não colocar um ator de origem asiática para interpetar o chinês, Barthelmess erra na composição ao confundir serenidade com falta de emoção.

Ademais, Griffith desenvolve comentários sobre cultura ocidental e oriental por intermédio da direção. Perceba, por exemplo, como a China é apresentada de maneira calorosa no primeiro ato, com a gentileza dos chineses e a amizade da população sendo destacada. Já quando a trama se transfere para Londres, o diretor fotografa a cidade de maneira escura, com ruas sujas e edifícios apagados.

Outro mérito de Griffith está na construção de uma atmosfera melancólica. Perceba como o realizador ressalta apenas a silhueta dos personagens em algumas cenas, através de planos gerais, ou como a trilha sonora prioriza o piano e o violino na maior parte do tempo, utilizando instrumentos de sopro apenas nas cenas envolvendo Chang e Lucy, inserindo ares tristes ao longa, mas pontuando a doçura dos momentos entre a dupla principal. O diretor também acerta nas cores escolhidas para cada cena, pintando a película de rosa nos momentos de afeto e cinza nos mais dramáticos, pontuando com precisão o tom de cada momento.

Esse trabalho técnico impecável culmina em um intenso clímax, que justifica a escolha de Griffith por um tom depressivo. O roteiro subverte a premissa simplória e, aparentemente, óbvia, partindo para uma conclusão surpreendente e que amarra com precisão dos três protagonistas, ligados por gestos violentos. Vale ressaltar também a inteligência do diretor ao reservar os close-ups para o término, potencializando a dramaticidade das cenas. Trata-se de um final triste, construído com maestria, mas que casa perfeitamente com a mensagem trazida logo no início, de que palavras duras podem doer tanto quanto um chicote, matando por dentro.

Lírio Partido prova que um longa com premissa simples e trama ágil pode ser dramaticamente e tematicamente intenso. Mais impressionante ainda é que a obra, feita em 1919, permanece com assuntos atuais, criticando a cultura da violência e xenofobia. Talvez isso mostre que, 100 anos depois, a humanidade pouco cresceu socialmente.

Lírio Partido (Broken Blossoms) – EUA, 1919
Direção: D.W. Griffith
Roteiro: D.W. Griffith
Elenco: Lillian Gish, Richard Barthelmess, Donald Crisp, Arthur Howard, Edward Peil Sr., George Beranger, Norman Selby
Duração: 89 min

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