Após o arco duplo dos vols. 9 e 10 da série, Giancarlo Berardi retoma a estrutura de uma história autocontida que vinha sendo utilizada anteriormente enquanto mantém a essência da série ao longo das aventuras da criminóloga, mas, novamente, trazendo um pouquinho de diferença na forma que constrói seu argumento. Júlia Kendall dessa vez é chamada para resolver um caso macabro de homicídio em um asilo, e como de costume, o quadrinho não economiza nos painéis violentamente gráficos e chocantes. Contudo, após o abalo inicial, o autor dá um encadeamento dramático diferente do esperado, concebendo uma investigação policial atenuada em torno do frustrante caso. E como parte disso, o crime hediondo específico vai lentamente saindo de cena para dar espaço a um pecado amplo, vagarosamente torturante e extremamente real: o esquecimento de idosos.
A maioria das pessoas já lidou com o sentimento de abandono em relação à idade avançada, seja perpetrando esse “crime” que se tornou praticamente uma convenção social ou então sendo o próprio sofredor dessa questão humana tão cruel. O roteiro de Repouso Eterno lida com isso de forma bastante direta e sentimental, continuamente martelando temáticas sobre o descaso parental, busca de atenção e propósito, e o confronto com a própria mortalidade. O roteiro de Berardi e a arte de Sergio Toppi criam uma atmosfera melancólica em torno desses elementos, em uma espécie de demonstração da lenta morte emocional, psicológica e física em asilos. Vemos isso em cenas sobre os quartos e as localidades dos idosos, assim como em contínuos diálogos esmorecidos de veteranos de guerra, velhinhas amarguradas e a própria funcionária da protagonista, Emily, aborrecida com a possibilidade de precisar de ajuda e/ou possivelmente ser substituída. O quadrinho até usa os já característicos pesadelos de Kendall para trabalhar essa ideia, no qual vemos frangos em abate.
Mas retornando à resolução do crime, o que temos é uma narrativa policial dilatada e até deveras serena e tranquila. Com exceção de alguns embates criminosos, a investigação de Júlia é uma sucessão de interrogatórios, conversações com parceiros e monólogos internos. Berardi utiliza essa concatenação para trabalhar a dinâmica entre a protagonista, Webb e o divertido Irving com mais momentos pessoais e de bate-papo entre o trio que o normal, remetendo-se a uma história do gênero mais clássica com um pezinho no realismo frustrante que é o trabalho policial. Além disso, para fugir um pouquinho da idealização geral provecta do quadrinho, a trama ganha algumas interessantes ramificações que preenchem a leitura de um modo diferente, já que o grande crime que permeia a história recebe poucas soluções na duração da obra. É quase como ter o caso principal como pano de fundo, funcionando mais como motor narrativo da temática da idade avançada do que necessariamente o foco investigativo, que recebe maior tratamento nos crimes paralelos de tráfico e assassinato da funcionária do asilo.
O final de Repouso Eterno é arrebatador, algo que tornou-se rotina para leitores da série. Ele até pode ser um pouquinho previsível à medida que o desfecho se aproxima, mas o impacto do alcance que esses personagens tiveram para ter uma pontinha de atenção, significado e simplesmente motivo para viver, é um completo choque de realidade. Só acho que além da ótima elaboração em torno desses temas, a construção investigativa e do mistério do crime é a mais fraca da série, justamente pelo teor mais contemplativo e vagaroso da história. O Repouso Eterno é uma aventura da Júlia na prisão, solidão e na espera da morte, em uma eterna tristeza vaga do que é envelhecer. No fim, a vida simplesmente continua seu curso, sem se importar com aqueles que caem no esquecimento.
Julia – Le avventure di una criminologa #11: L’eterno riposo | Itália, agosto de 1999
Roteiro: Giancarlo Berardi
Arte: Sergio Toppi
Capa: Marco Soldi
Editora original: Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Editora Mythos, 2005 e 2020
132 páginas