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Crítica | Inumanos: Partes 1 e 2 (IMAX)

por Ritter Fan
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estrelas 2

O formato IMAX é, normalmente, a melhor forma de se apreciar uma obra cinematográfica. Mesmo que as câmeras especiais do formato não sejam usadas nas filmagens, a telona – até essa pequenina que temos por aqui, jocosamente conhecida como “LieMAX” – e a qualidade do som conseguem, na maioria das vezes, aprimorar obras que de outra forma seriam mais do mesmo.

Mas, para que isso aconteça, há que haver refinamento no trabalho original e, quando o longa-metragem para cinema dos Inumanos foi retirado da Fase 3 do Universo Cinematográfico Marvel e uma série de TV pela ABC e Marvel, com parceria com a IMAX Corporation, que teria os dois primeiros episódios exibidos no formatão, foi anunciada em seu lugar, tremi nas bases. Afinal, se considerarmos o histórico de Agents of S.H.I.E.L.D. e Agent Carter, também da Marvel/ABC, lembraremos que, apesar de ótimas, elas nunca receberam um tratamento orçamentário que as permitisse despontar no quesito de efeitos em computação gráfica.

Meu raciocínio era que colocar algo menos do que deslumbrante em termos visuais na telona do IMAX só agravaria o problema, potencialmente sendo um tiro pela culatra, especialmente considerando que os personagens seriam os membros da família real inumana, todos com poderes que exigem um bom trabalho no lado dos efeitos. Mas, com o envolvimento da própria IMAX Corporation e suas câmeras parrudas, além (ou principalmente) do pagamento, por eles, do valor integral dos dois primeiros episódios, via uma luz no fim do túnel, luz essa que permaneceu acesa mesmo após os claudicantes trailers da série.

Mas não teve jeito. Meus receios foram mais do que plenamente materializados depois que a sessão de Inumanos em IMAX acabou. Reunindo uma versão especial dos dois primeiros episódios da primeira temporada da série, prevista para ter um total de oito, o filme, apesar de realmente usar toda a tela disponível, não mostra a que veio e de forma alguma justifica o uso do formato. Ao contrário, a qualidade visual e a arquitetura sonora de um telefilme comum são escancaradas durante a projeção, minando os esforços de todos os envolvidos em gerar buzz para o projeto e, arriscaria, até mesmo afastando eventuais interessados em continuar assistindo na TV.

A história começa em Attilan, cidade real inumana localizada na lua e cercada por uma redoma que a torna invisível se vista de fora e que artificialmente cria a impressão de dia e noite se vista de dentro. Diferente do que se pode imaginar, porém, a cidade parece mais uma prisão, com muito concreto e uma população aparentemente grande demais para o lugar (apesar de nunca realmente sentirmos isso, em um claro corte de orçamento com extras), o que explica – mas não justifica – uma divisão em castas entre os inumanos sem poderes ou com poderes “inúteis” depois da Terrigênese (cerimônia que revela as habilidades especiais de cada um, se houver) que trabalham na infraestrutura e os inumanos com poderes considerados nobres que, aparentemente, não fazem absolutamente nada a não ser viver de forma nababesca.

Nesse contexto, Maximus (Iwan Rheon, o Ramsay Bolton de Game of Thrones), irmão de Raio Negro (Anson Mount), rei de Attilan, demonstrando insatisfação com essa situação, além de inveja do irmão, desejo pela rainha Medusa (Serinda Swan) e dor de cotovelo por não ter manifestado poder algum na Terrigênese, planeja e executa um golpe de estado. Agindo rapidamente, Crystal (Isabelle Cornish), irmã de Medusa, consegue fazer seu buldogue gigante Dentinho teletransportar sua irmã e Karnak (Ken Leung), o conselheiro do rei, para a Terra (para o Havaí mais exatamente), onde já estavam Triton (Mike Moh), dado como desaparecido e possivelmente morto, e Gorgon (Eme Ikwuakor), chefe da segurança da cidade, que procurava por Triton. Ao encalço dos teletransportados, Maximus envia a letal Auran (Sonya Balmores).

O primeiro aspecto que é importante notar – e que é, francamente, um alívio – é que a linha narrativa dos inumanos da Terra apresentados em Agents of S.H.I.E.L.D. é mantida. Logo na abertura, vemos Triton, que tem poderes aquáticos, tentando exatamente resgatar uma nova inumana que aparecera em razão de cristais terrígenos misturados no abastecimento de comida da Terra como visto na primeira série da Marvel/ABC. Esse é, porém, o único ponto de tangenciamento entre as obras, que em todos os demais aspectos, pelo menos no que foi projetado, continuam separadas e devem continuar assim por um bom tempo, o que, sinceramente, vejo mais como qualidade do que como defeito.

Outro aspecto, e aqui é negativo, é a facilidade com que Maximus consegue efetuar seu golpe de estado. O showrunner Scott Buck, confirmando o tipo de trabalho canhestro que fez em Punho de Ferro, cria um roteiro frágil, simplista e bobo, que quer nos convencer que uma cidade inteira pode ser tomada assim, de repente, com meia dúzia de soldados fieis ao golpista, apesar de toda uma sólida estrutura monárquica no lugar. Ainda que os motivos que impulsionam as ações de Maximus sejam bem inseridos na história, a forma instantânea como tudo acontece é de revirar os olhos. Teria sido muito mais honesto e elegante se a série já começasse com Raio Negro e Medusa depostos na Terra e Maximus instalado no poder.

Mas a facilidade com que o golpe acontece não é nem a maior das fraquezas. O problema mesmo está no que Scott Buck faz para economizar dinheiro nos efeitos: como todo mundo tem poderes extravagantes – sinônimo de “caros” – ele trata de eliminar todos eles. Quando o telefilme acaba, Medusa está careca e não pode usar seu “cabelo vivo”, Karnak não consegue mais usar seus poderes de encontrar o ponto fraco em tudo e Raio Negro… bem, ele simplesmente não pode usar seu poder que converte o som de sua voz em fortíssimas ondas sônicas sem destruir tudo ao seu redor e matar todo mundo. No caso de Gorgon, seu poder é, digamos, modesto e o efeito prático que dá conta em trocar seus pés por cascos são suficientes (ou quase…). E Crystal? Bem, no caso dela – que manipula os elementos – confesso que o roteiro a fez uma personagem tão limitada (gostaram do eufemismo?) que não faz a menor diferença ela usá-los ou não…

No entanto, justiça seja feita, há alguns pontos positivos que precisam ser salientados.

O primeiro deles, claro, é Dentinho. O cachorrão simpático com poderes de teletransporte é o ponto alto do telefilme, sem dúvida alguma. Parece que todo o orçamento disponível foi empregado em criar um personagem crível, com massa corpórea que podemos sentir e com uma bela de uma personalidade. Ele também acaba sendo “neutralizado” ao final e tenho receio que sua utilização futura seja esparsa, mas, a julgar pelo que vi aqui, temos algo pelo que ansiar.

Além disso, há algumas sequências inspiradas. A melhor delas é um flashback para a adolescência de Raio Negro (vivido por Lofton Shaw) em que o vemos usando seu poder sem querer em frente aos seus pais. O resultado é devastador e mostra, assim como outras curtas sequências aqui e ali – especialmente envolvendo Auran e Medusa – que a série parece que não vai fugir de violência quando precisar empregá-la. Outro bom momento é quando vemos a representação gráfica do poder de Karnak em sua luta contra os golpistas em Attilan, pois passamos a entender melhor o que exatamente significa “achar o ponto mais fraco”.

Certamente muita gente está curioso para saber sobre o icônico cabelo de Medusa e se o CGI funciona. A boa notícia é que sim, no pouco em que ele aparece, a computação gráfica segura as pontas sem maiores problemas. No entanto, a escolha da produção em fazer com que Swan utilize uma peruca quase vermelha de tão ruiva, cria problemas de imersão, pois vemos muito claramente a artificialidade da prótese e, pior ainda, somos jogados para fora da tela quando há a transição do cabelo físico para o cabelo CGI. Espero que isso seja algo que melhore com o tempo (se o cabelo dela crescer rapidamente, claro…).

O elenco, infelizmente, não tem química alguma. Anson Mount tem uma feição apenas, a de constipado. Não podendo falar e só gesticulando (criou-se uma linguagem de sinais própria), seu Raio Negro é um personagem morto, que em momento algum desponta como rei, líder ou mesmo alguém por quem sintamos alguma simpatia. Nesse quesito, Iwan Rheon como Maximus, mesmo com suas limitações, é muito melhor, ainda que seja uma tarefa complicada separar o que ele faz aqui do que ele fez em Game of Thrones. O time feminino – Swan, Cornish e Balmores – precisa passar por outra Terrigênese, pois essa definitivamente não deu certo. Nem mesmo Ken Leung traz uma performance que deixa de ser afetada e artificial. Mas o pior é Eme Ikwuakor, que parece ler suas falas diretamente de um teleprompter.

Em outras palavras, o que poderia ser passável na telinha da TV torna-se quase um show de horrores no telão do IMAX. Dentinho, duas cenas realmente boas e um pouco da canastrice divertida de Rheon seguram as pontas e mostram que a série pode – com boa vontade – ter potencial. O rebaixamento de Inumanos de filme para série e, ainda por cima, com lançamento no formatão nobre para fins de marketing, realmente foi um tiro no pé que, espero, seja curável.

*Há uma cena pós-créditos.

*Inumanos estreia na TV no dia 29 de setembro de 2017.

Inumanos (Inhumans, EUA – 2017)
Showrunner: Scott Buck
Direção: Roel Reiné
Roteiro: Scott Buck
Elenco: Anson Mount, Iwan Rheon, Serinda Swan, Eme Ikwuakor, Isabelle Cornish, Ken Leung, Sonya Balmores, Mike Moh, V.I.P., Lofton Shaw
Duração: 75 min.

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