Home QuadrinhosOne-Shot Crítica | Godzilla vs. Quarteto Fantástico (2025)

Crítica | Godzilla vs. Quarteto Fantástico (2025)

Quatro porradinhas e um sopro infernal.

por Luiz Santiago
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Prometendo um impacto de nível 10 na Escala Ritter Richter, o encontro de Godzilla com o Quarteto Fantástico indicava trazer a colossal batalha de uma força descomunal contra uma equipe conhecida por boas estratégias de conjunto e forte aparato científico na resolução de suas problemáticas. Mas o que Godzilla vs. Fantastic Four nos entrega é menos um Godzilla derrubando arranha-céus e mais um kaijuzinho de papel machê em escala de brinquedo: repleto de hachuras, aparentemente barulhento, mas estruturalmente frágil. A premissa bacana de transformar King Ghidorah num arauto cósmico de Galactus, para incrementar o salão de inimigos na revista — três cabeças vomitando energia galáctica não é de se jogar fora, certo? — termina afundando em diálogos que parecem inspirados nas cenas mais icônicas de Cozzila (1977). Há algo tragicômico em ver o Surfista Prateado reduzido a um “passador de poder” (ao que parece, definitivamente!) que aparece no segundo ato para chacoalhar a narrativa, mas termina apenas sacrificando algo que poderia ajudar muito a humanidade no futuro.

Os desenhos de  John Romita Jr. e a finalização de Scott Hanna lidam melhor com quadros grandes (paisagens urbanas) e com Godzilla e o Surfista. Mas se considerarmos os rostos da primeira família e qualquer aparição de King Ghidorah, teremos material de sobra para rir. Até gosto de alguns quadros de batalha em larga escala, mas quando falamos em detalhes, temos aqui algo aparentemente feito às pressas… ou com grande descuido mesmo: coisas que vão de expressões faciais tenebrosas até poses risíveis a interações nada convincentes dos personagens com os cenários e com a tecnologia “de época”, algo tão marcante para o método do Quarteto Fantástico. A terrível sensação de ler um quadrinho onde os monstrões brigam no que parece ser um playground vazio, sem um progressivo senso de consequência (daqueles que fazem cidades em ruínas), entristece qualquer um.

Parte do problema aqui é a obsessão em replicar o teatro cafona dos anos LeeKirby, sem atualizar seu DNA. Que diabos acontece com essas “HQs de homenagem” que simplesmente imitam a pior parte dos roteiros sessentistas e ignoram o público para quem estão escrevendo hoje? Do lado de cá, temos que lidar com um desenho horroroso e sem sentido de um campo de força (ou corrente de força, sei lá) que a Mulher Invisível cria para o lagartão e que não serve para absolutamente nada. Ou com um plano mirabolante e mal explicado de Reed. Ou piadinhas ultrapassadas e vergonhosas ditas pelo Tocha e pelo Coisa no meio do processo. Daria até para aguentar essas últimas, se estivessem relacionadas a um contexto mais coerente, mesclando o humor bobo com a sci-fi catastrófica, mas isso não acontece. Depois, é sintomático que Galactus, uma encarnação cósmica da fome eterna em prol de um equilíbrio Universal, apareça como se fosse um holograma genérico, tão ameaçador quanto um protetor de tela do Windows 95 e tendo Ghidorah como se fosse um papagaio radioativo no braço de um pirata com elefantíase.

A despeito de começar bem (são duas páginas de abertura que animam o leitor, devo admitir), a história não tem um ritmo bom e não consegue manter uma linha de acontecimentos e resoluções inteligentes, sempre pulando para a próxima dificuldade, com diálogos aleatórios, bregas e eventos que me fazem questionar como é que isso aqui se passa na Terra-616, a Terra oficial da editora? Quando o último quadro tenta fazer um medinho básico sobre a volta de Galactus (qual é a tara atual da Marvel com esse cabeçudo?), após a vitória de Godzilla e sua solitária ida para o fundo do oceano — sim, Godzilla é uma versão do “Estranho Sem Nome” –, o que deveria soar como epílogo cheio de tensão e olhar temeroso para o futuro, vira apenas inconveniência. Um duelo de titãs irritante e nada comovente.

Godzilla vs. Fantastic Four (EUA, 26 de março de 2025)
Roteiro: Ryan North
Arte: John Romita Jr.
Arte-final: Scott Hanna
Cores: Marcio Menyz
Letras: VC’s Travis Lanham
Capa: Adam Kubert, Morry Hollowell
Editoria: Mark Paniccia
30 páginas

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