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Crítica | Godzilla, Mothra e King Ghidorah: O Ataque dos Monstros Gigantes

Bicho pra todo lado!

por Luiz Santiago
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Este é o terceiro filme da Era Millenium de Godzilla, e o terceiro reinício pelo qual a série passa, novamente mantendo ativos os acontecimentos do clássico de 1954, e ignorando absolutamente tudo o que veio depois. Se isso já tinha funcionado acima da média em Megaguirus, aqui, em O Ataque dos Monstros Gigantes (também conhecido como GMK), a coisa sobe um pouco mais a régua da qualidade e se configura em algo que não víamos há muito tempo nos filmes do lagartão atômico. O que se mantém, desta Era, é o tratamento vilanesco dado ao titã protagonista, que definitivamente é um inimigo e deve ser combatido pelo bem da população do Japão e, quem sabe, do mundo. Diferente do longa do ano anterior, porém, o presente filme não inventa tecnologias absurdas e nem cria uma outra linha do tempo, com uma nova capital para o Japão e invenções contraditórias para essa nova sociedade. Em certa medida, há muita essência da Era Showa aqui, e isso também pode ser visto na abordagem coerente para o uso de recursos militares contra o inimigo.

Mas o combate a Godzilla não se dá apenas por meios bélicos, e é aqui que encontramos um ponto curioso na construção do roteiro: mesclas de caminhos narrativos de outras obras e de outros colossos do gênero se fazem presentes nessa trama. Dessa forma, se torna legítima a linha mística da fita, centrada no Professor Hirotoshi Isayama (Hideyo Amamoto), que ajuda a despertar os três Monstros Guardiões para deter a fúria de um Godzilla que reapareceu, depois de quase 50 anos (importante relembrar: esta é uma nova realidade na série!), simplesmente para destruir tudo, como se estivesse numa missão de vingança. O time de “monstrengos amigos“, formado por Baragon, Mothra e Ghidorah, aparece exatamente nessa ordem, e faz de tudo para impedir que a jornada de mortandade provocada por Godzilla continue. E, meus amigos, que jornada!

Um dos motivos pelos quais o filme foi um sucesso de bilheteria e garantiu lugar no coração dos fãs, é a forma como o diretor Shûsuke Kaneko explorou a passagem do titã pelas cidades, matando um número muito grande de pessoas e em situações tão brutais e inesperadas, que acabaram se tornando um verdadeiro deleite de humor ácido para o público. A película é inteiramente pautada por uma urgência que o diretor sabe explorar bem em tela, especialmente no início, com muitas frentes do núcleo humano se movimentando para fazer a cobertura jornalística ou estudar uma forma de lidar definitivamente com a ameaça. Pesa-se a mão em alguns blocos humorísticos, como os da repórter Yuri (Chiharu Niiyama), e em cenas de ligação que não fazem diferença alguma para a trama, muitas delas, envolvendo os militares e políticos; mas o conjunto dramático dá conta de expor muitas sequências divertidas e dirigidas com primor, ajustando assim a qualidade da obra, a despeito dos eventuais tropeços. Não dá para ignorar, por exemplo, o primeiro plano em que Godzilla aparece de corpo inteiro, filmado em contra-plongée, destacando sua dimensão em altura. O mesmo vale para a primeira revelação de Mothra com as asas totalmente abertas e o momento em que King Ghidorah recebe o pólen mágico da mariposa e também abre as asas.

A montagem dá o devido peso ao fato de que temos quatro kaijus em cena, e mesmo que o núcleo humano tenha bastante espaço e seja bem arquitetado, são os bichões quem de fato tomam a atenção da câmera, sendo mostrados em movimento solo e também em luta direta, todas muito bem dirigidas e acompanhadas por peças diferentes da trilha sonora, que é assumidamente uma versão reciclada do maravilhoso trabalho de Akira Ifukube. O jogo entre o desespero diante de um monstro e a fé de que outras criaturas podem aparecer para ajudar a combatê-los é a marca registrada desse enredo, que tem o mérito de não fazer os militares parecerem peões nonsense na estratégia de defesa da população. Se pararmos para analisar com cuidado, este é um filme que tinha tudo para dar muito errado, desde o número de gigantes na história até a variedade de abordagens canônicas para a construção do texto, indo do místico ao racional, armamentista, político, midiático e ocasionalmente cômico. Uma sopa de caminhos dramáticos que não descaracteriza a obra e garante um bom entretenimento, conseguindo ainda nos deixar com a pulga atrás da orelha com sua cena final, num cliffhanger simples, mas muito eficiente, sugerindo a continuação do perigo no futuro. Como não gostar de um filme assim?

Godzilla, Mothra e King Ghidorah: O Ataque dos Monstros Gigantes (ゴジラ モスラ キングギドラ / 大怪獣総攻撃 / Gojira, Mosura, Kingu Gidorâ: Daikaijû sôkôgeki) — Japão, 2001
Direção: Shûsuke Kaneko
Roteiro: Keiichi Hasegawa, Shûsuke Kaneko, Masahiro Yokotani
Elenco: Chiharu Niiyama, Ryûdô Uzaki, Masahiro Kobayashi, Shirô Sano, Takashi Nishina, Kaho Minami, Shin’ya Ohwada, Kunio Murai, Hiroyuki Watanabe, Shingo Katsurayama, Toshikazu Fukawa, Masahiko Tsugawa, Hideyo Amamoto, Nobuaki Kakuda, Takafumi Matsuo, Kazuko Katô, Katsuo Nakamura
Duração: 105 min.

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