Há exatamente uma década, conheci a magnífica arte de James Stokoe por meio de uma minissérie de Godzilla, The Half-Century War, e tornei-me grande apreciador dele. Agora, também por intermédio de uma HQ do Lagarto Atômico, conheci o artista Jake Smith, que não poderia ter um nome mais comum e, ao mesmo tempo, uma arte tão incomum, singular e imediatamente cativante como a que ele emprega em Godzilla: Guerra pela Humanidade, minissérie em cinco edições publicada pela IDW Publishing. Há convergência entre o estilo de Smith e o de Stokoe no que se refere à forma mais cartnunesca como personagens humanos são desenhados, mas ela para por aí, já que os dois artistas têm assinaturas muito particulares, cada uma tão sensacional quanto a outra.
Enquanto a obra de Stokoe é focada no detalhismo extremo, com cada quadro sendo ocupado quase que cientificamente com elementos variados que formam um conjunto harmônico, a de Smith parece elevar a abordagem cartunesca para tudo o que ele coloca nas páginas, sejam humanos ou kaijus, com o artista revelando um controle absoluto da narrativa visual, sem deixar de criar páginas explosivas, com diagramação variada e uma fluidez muito rara de se encontrar por aí. Suas versões dos monstros clássicos da Toho, de Godzilla à Mothra, passando por Minizilla e Rodan, além da criação da ameaçadora criatura criada especificamente para a minissérie, Zoospora merecem a mais alta comenda, por ele não só capturar o estilo de mais de meio século de criaturas estranhas, como conseguir imprimir o seu próprio estilo em cada uma delas.
Mas seria injusto de minha parte se eu não tecesse elogios rasgados para o trabalho de cores da italiana Valentina Pinto que termina de dar vida ao que Smith desenha. Se eu falei que Smith criou páginas explosivas, diria que grande parte do efeito que ele consegue atingir em Guerra pela Humanidade vem do emprego de cores por parte de Pinto que parece saber usar exatamente as matizes menos menos comuns das mais variadas cores que, por outro lado, encaixam-se perfeitamente na linguagem artística de Smith, resultando em um conjunto visual que faz com que literalmente todas as páginas torne-se material do tipo que qualquer leitor teria orgulho de enquadrar e pendurar em sua parede. Há muito tempo não ficava impressionado com um trabalho artístico de uma dupla que, para mim, era completamente desconhecida e podem ter certeza de que qualquer coisa com um ou os dois nomes desses artistas será caçada por mim para leitura.
Sei que sequer falei da história escrita por Andrew Maclean até agora, mas é que eu realmente precisava primeiro abordar a arte. Mas a boa notícia – a excelente notícia, vale dizer! – é que o roteiro de Maclean, apesar de prezar pela simplicidade, entrega exatamente o que um leitor minimamente consciente de uma HQ de kaiju pode esperar: uma obra repleta de pancadaria entre monstros, mas que sabe lidar com o núcleo humano como raras vezes visto e que tem conteúdo narrativo efetivo e não uma bobagem qualquer só para servir de desculpa para a destruição. Em outras palavras, o roteirista – que é também capista, vale dizer – faz um trabalho completo que introduz um monstro novo na mitologia de Godzilla, mas que também cava profundamente nas décadas de histórias do monstrão, bebendo de fontes variadas e criando uma narrativa que faz convergir os núcleos humanos e monstruosos com muita naturalidade e toda a verossimilhança que se pode esperar da premissa.
Na história, portanto, vemos a professora Yuko Honda, que, quando criança, foi salva de Hedorah por Godzilla e que, agora adulta, dedica-se a espalhar o evangelho de que Godzilla é uma força do bem, tendo que lidar com sua relação com sua mãe (sempre ao telefone) e com sua filha Samantha ao mesmo tempo em que precisa enfrentar a ameaça de Zoospora, um gigantesco fungo que ataca kaijus, controla-os e coloca-os em rota de colisão com os humanos. Recrutada para fazer parte de um grupo secreto anti-kaijus formado por seu inimigo mortal Phazon Fullchech, um bilionário à la Elon Musk que investiu na construção de M.O.G.U.E.R.A., um mecha para enfrentar monstros; pela coronel Elise Guerrero, líder formal do grupo; por Johnny Wiggum, biólogo e neurocientista que é uma espécie de enciclopédia humana de fatos e mitos sobre as enormes criaturas e, finalmente, Barry, o menosprezado faz-tudo do grupo que é particularmente eficiente na geração de relatórios diários que são devidamente ignorados. Juntos, eles partem para enfrentar o organismo eucariota com tudo o que eles têm, seja o construto metálico de Fullchech, seja a crença de Yuko que Godzilla é a única esperança deles, ainda que o Lagarto Atômico, dessa vez, recuse-se a participar da pancadaria por estar cuidando de seu protegido Minizilla lá na Ilha Monstro.
A narrativa, como disse, vai fundo na mitologia de Godzilla, chegando até mesmo a usar as shobijin – fadas-sacerdotisas gêmeas de Mothra -, mas em momento algum ela exige conhecimento profundo de quem porventura decidir embarcar na história sem conhecimento prévio. Tudo ganha explicação orgânica na medida suficiente para fazer da história algo fácil de ler, sem que Maclean siga pelo fácil caminho emburrecedor que tantas vezes gravita ao redor dos kaijus em geral. Aqui, as relações humanas são muito importantes e a própria condição humana no planeta é discutida de maneira sóbria e interessante, ainda que, claro, isso já tenha sido objeto de outras obras do mesmo gênero e de variadas outras. Da mesma maneira, a relação entre monstros é muito bem trabalhada – especialmente entre Mothra e Godzilla -, assim como as decisões difíceis e antipáticas tomadas pelos humanos, notadamente a protagonista, para defender a todo custo a humanidade.
Godzilla: Guerra pela Humanidade é, no final das contas, uma minissérie de Godzilla do mais alto gabarito que acerta absurdamente na arte que traz à vida um roteiro inteligente e bem construído, ainda que galgado em premissas simples. Trata-se de uma daquelas obras da Nona Arte que, depois que acabamos de ler a primeira vez, voltamos para uma segunda vez, somente para, com calma, observarmos e absorvermos cada detalhe do fascinante trabalho artístico de Smith e Pinto. Eu já disse que vou perseguir obsessivamente os dois como já faço com James Stokoe?
Godzilla: Guerra pela Humanidade (Godzilla: War for Humanity – EUA, 2023/24)
Contendo: Godzilla: War for Humanity #1 a 5
Roteiro: Andrew Maclean
Arte: Jake Smith
Cores: Valentina Pinto
Letras: Rus Wooton
Editoria: Jake Williams, David Mariotte
Editora: IDW Publishing
Datas originais de publicação: 16 de agosto, 27 de setembro, 20 de dezembro de 2023; 28 de fevereiro e 1º de maio de 2024
Páginas: 130