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Crítica | Gen V – 1X06: Jumanji

Sua mente é um livro aberto.

por Ritter Fan
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  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios e séries do universo e, aqui, dos quadrinhos.

Ora, ora, quem diria! Com o esperado anúncio da renovação de Gen V, o antepenúltimo episódio da temporada recorre ao bom e velho artifício do “mergulho na mente dos personagens” na mais completa literalidade e o resultado é mais um grande acerto da série que não parece conseguir errar ou fazer nada que eu, pessoalmente, consiga classificar como menos do que “muito bom”. É o drama adolescente no universo pervertido de The Boys produzido com identidade própria, personagens cada vez mais cativantes e uma sucessão bem concatenada de eventos que sabe lidar com os traumas do crescimento e do amadurecimento sem facilitar nada para ninguém.

Para ilustrar meu ponto, deixe-me deixar de lado, pelo momento, a linha narrativa principal que, claro, é a “fusão mental” de Marie, Andre e Jordan a partir do aparente coma de Cate depois que ela devolve a eles todas as memórias que apagou. Essa é a parte do episódio que é fácil de gostar e que, portanto, é fácil de escrever. Vamos primeiro ao mundo real, com Emma correndo atrás de Sam na lanchonete do drive-in abandonado que ele costumava frequentar com Luke e os dois passando algumas horas juntos se descobrindo.

Dois adolescentes problemáticos encontrando a chama do amor é um dos mais repetidos, cansados, bregas e preguiçosos clichês do audiovisual, daqueles que leva o espectador com um mínimo de experiência rolar os olhos quando percebe que algo nessa linha está prestes a acontecer, isso se ele simplesmente não desligar o programa ou adiantar a cena. Mas toda essa baboseira açucarada em Jumanji é muito bem trabalhada pelo roteiro de Lauren Greer que, na maior discrição e com grande sobriedade e, mais ainda, simplicidade, subverte expectativas ao colocar Emma no comando e criar uma sequência muito bonita em que ela e Luke transam como se não houvesse amanhã. Tudo funciona ali, começando pela química excelente dos dois jovens atores, passando pela irresistível atuação de Lizze Broadway que, aos poucos, vem galgando os degraus da série para tornar-se a melhor do elenco e chegando às singelas linhas de diálogo escritas para eles.

E o mesmo vale para a direção de Rachel Goldberg que não faz fanfarra do momento, tratando-o quase que como uma solenidade, como algo realmente especial entre esses dois jovens cheios de traumas. Nem mesmo os flashes em que Sam vê Emma como uma marionete são enfocados com o objetivo de fazer humor, ainda que ele seja inevitável pelo inusitado da coisa. Ao contrário até, vejo nesses momentos em tese cômicos como uma forma visual de a diretora mostrar ao espectador que aquele ali é um Sam em controle de sua mente, capaz de afastar seus delírios, a exata antítese do que vimos em Welcome to the Monster Club.

São sequências em princípio banais como a que abordei acima que Gen V, com sua condução exemplar, consegue ganhar ainda mais destaque no aparentemente infinito manancial de obras relacionadas a super-heróis e, com isso, distanciar-se da homogeneidade simplificada que é a praga das grandes franquias do audiovisual. Mergulhando no coração do episódio, repararemos que ele também usa de artifícios batidos que já vimos uma enorme quantidade de vezes antes das mais variadas maneiras. Protagonistas sendo dragados para uma estase de onde eles têm que lutar para sair revelando seus segredos no processo, em uma variação da expiação de pecados de dogmas religiosos é um tropo narrativo, mas um daqueles que, se bem usado, dá muito pano para manga, mesmo que tenhamos que ter o personagem aleatório que só aparece para morrer.

Novamente, a dupla Greer e Goldberg acertaram no alvo e, mesmo partindo para os “cinco minutos no passado de cada um”, conseguem fazer a narrativa efetivamente andar. Se o segredo de Cate e Marie nós já conhecíamos bem, não podíamos dizer o mesmo dos de Andre e Jordan, especialmente do(da) segundo(a). E, em Jumanji, tudo é revelado para todo mundo (menos Emma, claro), colocando-os em pé de igualdade e em posição para encarar os pecados do passado de forma que possam caminhar para a frente de cabeça erguida. Obviamente que o caminho de Cate será naturalmente mais árduo, mas sua redenção era algo de se esperar até que, claro, alguma outra reviravolta aconteça, já que não dá para confiar nela completamente. Os pontos mais altos, claro, são a ponta de Jensen Ackles como Soldier Boyfriend, o amigo… digo, amante imaginário de Cate que a ensinou a se masturbar como ele deixa muito claro em todos os coloridos, hilários e absolutamente grosseiros sinônimos que ele consegue dizer em uma frase e alguns gestos; e a sequência em que vemos como a reitora usou de empatia e carinho para transformar uma carente e melancólica Cate em sua arma secreta.

Aliás, falando em arma, não posso me esquecer do fechamento do episódio que parece preparar a temporada para seu fim, com a verdadeira função da Floresta sendo finalmente revelada no que parece ser sua plenitude, já que nem mesmo o Dr. Cardosa sabia do objetivo de Shetty que não quer apenas controlar os supers, mas sim ter uma arma para matá-los. A pergunta que permanece, claro, é se ela faz o que faz a mando da Vought ou se ela tem uma agenda própria que ainda não conhecemos. Vai que ela está secretamente trabalhando para os Rapazes como uma agente dupla, já pensaram?

Jumanji pode fazer tudo o que já foi feito milhares de vezes antes, mas uma coisa é fazer de qualquer jeito, no automático, outra bem diferente é fazer com a qualidade que vemos aqui. Gen V segue firme em seu caminho e muito rapidamente já ganhou pernas próprias dentro desse absurdamente violento universo criado por Garth Ennis, mas melhorado (e muito), por Eric Kripke e companhia.

Gen V – 1X06: Jumanji (EUA, 20 de outubro de 2023)
Desenvolvimento: Craig Rosenberg, Evan Goldberg, Eric Kripke
Direção: Rachel Goldberg
Roteiro: Lauren Greer
Elenco: Jaz Sinclair, Chance Perdomo, Lizze Broadway, Maddie Phillips, London Thor, Derek Luh, Asa Germann, Shelley Conn, Alexander Calvert, Sean Patrick Thomas, Marco Pigossi, Clancy Brown, Patrick Schwarzenegger, Jensen Ackles
Duração: 40 min.

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