- Contém SPOILERS. Leia aqui, as críticas das demais temporadas. GOT
O choque proposto pela gigantesca virada do “Casamento Vermelho” deixou as expectativas afloradas para o que o próximo ano de Game of Thrones resguardava. Pelo nível sádico do evento no storytelling, era necessária uma resposta rápida ao grande acontecimento, e ainda, uma minuciosa pitada de como as consequências dele se reverberariam. A season première, intitulada como Two Swords, cumpre o papel padrão de organização de tabuleiro de núcleos que a série sempre teve, reposicionando os personagens em seus cantos e estabelecendo a eles novas metas. No entanto, apesar dessa padronização, o núcleo dos Lannisters especialmente, carregam um senso premonitório de pressagio, uma vez que o foco maior do episódio estaria sido destinado a eles e sem a fermentação de um possivel conflito, ainda em clima celebrativo da vitória sobre os Starks.
O episódio seguinte, esse senso de presságio é elevado a enésima potência, em olha só, mais um casamento. Por mais que seja o início de temporada, e geralmente Game of Thrones não se dá ao luxo de elaborar tensões climáticas em seus primeiros episódios, fica muito claro de que algo vai dar errado ali, considerando não só a maior duração do núcleo, como também as pequenas pistas deixadas no caminho que poderão apontar os culpados da vítima final, no caso, o inescrupuloso Joffrey (Jack Gleeson). Até por ser ele em questão o morto no final angustiante do episódio, não vejo aqui, uma repetição da fórmula no intuito de surpreender ou impactar da mesma forma que o casamento vermelho, mesmo diante da escolha de começar assim a temporada, por si só ser uma surpresa. É como dito, uma escolha de recompensa, a série estava ficando muito famosa e os mocinhos somente em desvantagem não estimulariam o público a continuar, afinal por que ver algo direcionado ao entretenimento onde os heróis só se dão mal?
Assim, explode o conflito interno em King’s Landing na maior gratificação possível ao ver alguém tão desgraçado como o Joffrey, enfim tendo a morte que merece. Ao fim do envenenamento, é Tyrion (Pinter Dinklage), o mais simpático do núcleo dos vilões, é o que segura a taça que possivelmente o matou e a dúvida, implementada para ao longo da temporada, se foi ele mesmo, ou quem seria, aquele que conspirou contra a morte do rei. O anti-heroismo duvidoso do anão, se junta a honra estranha de Jaime (Nikolaj Coster-Waldau) desenvolta na temporada passada, com mais camadas a esse núcleo dos Lannisters que se torna definitivamente o mais interessante da série nesse clima de colapso pós gloria. E é o mais interessante justamente por está sendo desenvolvido através da urgência do conflito, que vai expondo as complexidades morais daquela familia de um modo mais próximo, logo, substancial. O mistério de quem matou serve apenas um gatilho para alavancar essas várias questões do passado, em especial, a marginalização de Tyrion a sua fisiologia durante toda a sua vida em que seu temperamento específico meio que serviu como autodefesa.
Uma defesa que pela situação vai sendo nitidamente quebrada nos olhares do povo de King’s Landing diante de seu julgamento, o que leva a outro momento espetacularmente recompensador da temporada que é seu desabafo ao final da condenação com direito a julgamento por combate, em um show particular de atuação de Pinter Dinklage como o anão. Não para por aí, ainda a própria temporada irá resolver esse desafio, em mais um grande momento, que é a luta de Oberyn Martell (Pedro Pascal) e o Montanha (Hafthór Júlíus Björnsson) para decidir o destino de Tyrion. Oberyn que talvez tenha sido um dos personagens mais bem introduzidos em toda a série, o carisma particular de Pedro Pascal rapidamente conquista simpatia e o desenvolvimento espaçado do personagem nos poucos episódios, leva a crer que a luta será seu momento de glória a virar um dos principais, além de trazer a resolução parcial de todo esse conflito interno dos Lannisters, até a real descoberta do assassino. E a série, no seu maior nível de sadismo recompensador, nos faz crer nessa gloria até o último segundo da espetacular luta do episódio The Mountain and The Viper, até explodir a cabeça de Oberyn e definhar de vez que o caminho do Tyrion, ou é a morte, ou o distanciamento total da sua familia.
E não duvidaria nada se o escolhido fosse a morte, mas como também é o ápice recompensador da série, certamente o Tyrion, muito querido pelo público, ainda teria muito futuro pela frente. Assim, entra o desenvolvimento substancial da sua relação de irmandade com o Jaime, que ainda tem sua parcela de tela muito valorizada nessa temporada – dando prosseguimento ao desprendimento da relação abusiva com a Cersei (Lena Headey) – justamente para aparecer no momento certo e ser a válvula de escape do irmão. Ainda por cima, Tyrion não deixa barato e assassina seu pai Tywin (Charles Dance), no último episódio para que a crise interna do núcleo do rei se estenda também para a próxima temporada. Afinal, é preciso que a reconstrução dos mocinhos esteja sincronizada a decadência dos vilões, para que o jogo seja retomado em equilíbrio. Essa que vai estar muito centrada em Daenerys (Emilia Clarke) e seu arco de libertação dos escravos em Essos e a saga do Jon Snow (Kit Harington) em busca de unir a patrulha da noite com os selvagens na muralha de gelo.
A rainha dos dragões, segue acumulando feitos que a fazem ser reconhecida como ameaça, agora, pelo seu caráter conquistador de libertação, enquanto Jon Snow humildemente vai provando uma liderança nata para a resolução de batalhas práticas, onde ele abre mão de convicções particulares em prol de uma responsabilidade maior, como demostra a finalização do seu arco romântico com Ygritte (Rose Leslie), no qual, os dois são colocados para batalhar e Ingrid acaba morrendo em seus braços justamente por Snow não abrir mão de suas convicções. Alias, essa batalha do episódio The Watchers on the Wall era pra ser mais um clímax da temporada enquanto caráter épico, mas acaba não sendo a altura dos outros climaxs mais contidos de nucleos mais esporádicos, como o de Arya (Maisie Williams) com o Cão (Rory McCann) que se cruzam com o de Brienne (Gwendoline Christie), em uma luta épica entre os dois, ou o de Bran (Isaac Hempstead-Wright) que finalmente encontra o corvo de três olhos numa situação desesperadora de personagens vulneráveis a esqueletos zumbis, finalmente aparecendo com relevância em cena.
A season finale, intitulada The Children, justamente tem esse intuito de reunir outros nucleos da temporada a convergir, também de forma recompensadora aos seus desenvolvimentos, que, cirurgicamente, representam a divisão exata entre o ápice da tensão política que a série inicialmente se construiu, com o maior passo a fantasia como solução futura a guerra dos tronos. Desse modo, podemos colocar a quarta temporada como auge de Game of Thrones em suas duas principais vertentes enquanto dramaturgia rica na política e fantasia de seu delicioso universo.
Game of Thrones – 4ª Temporada | EUA, 2014 Game of
Criação: David Benioff, D.B. Weiss (baseado em obra de George R. R. Martin)
Direção: D. B. Weiss, Alex Graves, Michelle MacLaren, Alik Sakharov, Neil Marshall
Roteiro: David Benioff, D.B. Weiss, Bryan Cogman, George R. R. Martin
Elenco: Peter Dinklage, Nikolaj Coster-Waldau, Lena Headey, Emilia Clarke, Kit Harington, Aidan Gillen, Charles Dance, Natalie Dormer, Liam Cunningham, Stephen Dillane, Carice van Houten, Jack Gleeson, Alfie Allen, Isaac Hempstead Wright, Sophie Turner, Maisie Williams, John Bradley, Rose Leslie, Kristofer Hivju, Hannah Murray, Rory McCann, Gwendoline Christie, Iwan Rheon, Conleth Hill, Jerome Flynn, Sibel Kekilli, Iain Glen, Finn Jones, Diana Rigg, Pedro Pascal, Hafþór Júlíus Björnsson, Daniel Portman, Kerry Ingram, Nathalie Emmanuel, Julian Glover
Duração: 10 episódios – 50 minutos em média cada episódio