Dentre os vários ótimos documentários sobre os bastidores de produções cinematográficas – alguns como Império dos Sonhos, Dias Perigosos, A Loucura de Max e Perdido em La Mancha vêm imediatamente à mente – que existem por aí, talvez nenhum seja tão revelador, tão honesto e tão fascinante quanto O Apocalipse de um Cineasta, que aborda a caótica e interminável produção de Apocalypse Now, o quarto marco cinematográfico seguido de Francis Ford Coppola na década de 70, depois de O Poderoso Chefão, A Conversação e O Poderoso Chefão – Parte II e talvez, até hoje, sua última verdadeira grande obra-prima. Produzido a partir das filmagens – e também gravações de áudio clandestinas! – feitas por Eleanor Coppola quando ela e seus três filhos se mudaram para as Filipinas para ficar ao lado do marido durante as filmagens, que depois ganhou entrevistas com o diretor, membros da equipe e os atores principais já mais velhos no final dos anos 80 e começo dos anos 90, o relativamente curto documentário é um deleite audiovisual não só para quem aprecia o longa antibelicista de Coppola, como também para qualquer um que se interessar por produção audiovisual como um todo, especialmente aquelas feitas em uma época em que havia uma certa… digamos… elasticidade nas regras dos sindicatos hollywoodianos sobre “detalhes” como segurança e saúde daqueles que estão envolvidos com a produção.
As filmagens e gravações de Eleanor Coppola são, em seu conjunto, o real filé mignon da narrativa, já que o material dela captura com franqueza e sem pudor a evolução – ou, talvez, involução – das mentes e dos estados de espírito dos nomes mais importantes envolvidos na produção do longa durante as conturbadas filmagens nas Filipinas que acabaram levando mais de 220 dias, com Francis Ford Coppola queimando rios de seu próprio dinheiro que obteve com a hipoteca de seus bens e com acordos com a United Artists. E essa franqueza de Eleanor não poupa nem mesmo o marido, já que ouvir a voz dele por diversas vezes afirmando o desastre que o filme era em sua visão, sua incapacidade de escrever um fim e um sem-número de outras confissões raras de se ouvir por aí de artistas renomados, não tem preço. E, claro, fica aquela impressão de que há potencialmente muitas outras gravações dessas que acabaram ficando de fora do documentário para não “condenar” a obra e seu comandante mais do que o próprio Coppola condenou à época.
Com Apocalypse Now, o que Coppola queria realmente fazer era finalmente levar seu sonho à fruição, ou seja, fazer de sua produtora Zoetrope um centro em que cineastas independentes poderiam criar sem a opressão do Sistema de Estúdio, mas o que vemos diante de nossos olhos ao longo de 96 minutos é justamente algo que parece provar o contrário, ou seja, parece indicar que é importante um controle realmente profissional por trás de uma produção desse porte para que ela não se perca no meio do caminho. Se Apocalypse Now seria Apocalypse Now se algum estúdio estivesse dando as ordens por trás (ou se o diretor fosse George Lucas, como era o plano inicial, ainda no final dos anos 60), eu não sei, mas o que eu posso dizer com certeza é que, mesmo com um estúdio dando as ordens por trás, O Poderoso Chefão saiu do que jeito que sabemos que saiu, pelo que há evidências para os dois lados dessa conversa.
Ver Francis Ford Coppola transmutar-se de um diretor e produtor seguro de si para um homem em frangalhos diante das câmeras é impressionante e no mínimo dos mínimos um testamento de que ele não tem pudor algum em mostrar ao mundo seus problemas no manejo de algo tão em larga escala como o que vemos durante seu incrível longa. Coppola é um sonhador, um cineasta que “vai lá e filma”, algo que, olhando com olhos atuais, podemos condenar facilmente por ele obviamente pagar centavos para os filipinos empregados na produção (isso é mencionado durante o documentário, vale dizer) e por outros diversos aspectos como por exemplo sua insistência em filmar durante a passagem de um tufão na região (as cenas não foram usadas na versão cinematográfica final e uma delas aparece brevemente no documentário), e é também algo que é raro de se encontrar hoje em dia nessa escala. Sem a coragem de se fazer um acordo com o ditador Ferdinando Marcos das Filipinas para usar helicópteros, aviões e pilotos das forças militares do país ou de bancar uma filmagem principal que durou muito mais tempo do que o originalmente planejado, com sequências enormes inteiras sendo sumariamente cortadas como é o caso da famosa cena do jantar na plantation francesa dos anos 50 que Coppola diz diante das câmeras que detestou e que, depois, ganhou vida na versão Redux, seu filme não existiria e, mesmo que nem sempre seja bom aceitar que os fins justificam os meios, talvez uma obra do calibre de Apocalypse Now tenha sim justificado os meios menos do que sensatos usados para que ela se tornasse realidade.
Mas Coppola não é o único a ser alvo de escrutínio do documentário, já que Martin Sheen ganha enorme destaque, seja pelo ataque cardíaco que ele teve durante a produção e que quase o matou, seja por sua visão honesta em retrospecto sobre o caos de sua vida pessoal na época e, claro, o uso aberto de drogas – dentre bebidas, opioides e outras – que ele e os demais membros do elenco (e certamente de toda a produção) usaram em quantidades cavalares. É uma pena, porém, que a substituição de Harvey Keitel por Sheen depois de dias de filmagens – algo que famosamente aconteceria em De Volta para o Futuro só para usar um exemplo – seja abordada muito rapidamente, sem que sequer haja uma cena com o ator original ou uma entrevista com ele depois, algo que dá a entender, naturalmente, que foi um momento traumático já no início da produção.
Por outro lado, é sensacional como o documentário aborda a relação de Coppola com Marlon Brando na produção, seja na fase de negociação depois que tudo começa a desandar, seja quando o astro finalmente chega ao set nas Filipinas completamente fora de forma e sem ter feito seu dever de casa básico, que era a leitura de Coração das Trevas, o assustador romance de Joseph Conrad que inspirou a produção. Mas, se Brando revela-se desleixado, Coppola mostra-se muito mais, já que, mesmo depois de passado tanto tempo, ele não tinha um final para seu longa, uma vez que ele não gostara da sequência apoteótica que John Milius (que também aparece de muito bom humor dando entrevistas para o documentário) escrevera. Sem roteiro e sequer sem saber o que fazer, é quase inacreditável ver Coppola dirigindo Brando quase a esmo, com perguntas jogadas no ar que são respondidas no improviso pelo ator, uma de suas características definidoras, vale dizer. Confesso que eu poderia ver horas dessas trocas entre o cineasta e o ator e, também, que eu senti falta, no documentário, sobre mais detalhes de como, em pós-produção, Coppola guiou a montagem dos muitos rolos de Brando filosofando “de orelhada” para chegar ao resultado final.
O único defeito de O Apocalipse de um Cineasta é ele não ser substancialmente mais longo, trazendo mais filmagens e mais gravações de áudio completamente sem censura de Eleanor Coppola para a luz. Assim como eu veria facilmente tudo o que ficou no chão da sala de edição sobre Marlon Brando, eu veria tudo o que ficou por lá do filme inteiro, até mesmo a família Coppola junta jantando no meio da selva úmida das Filipinas. Sensacional como talvez o melhor filme antibelicista já feito tenha gerado aquele que provavelmente é o melhor documentário de bastidores de uma produção cinematográfica, não é mesmo? Bem que Coppola poderia lançar a versão Redux dele, hein?
Francis Ford Coppola – O Apocalipse de um Cineasta (Hearts of Darkness: A Filmmaker’s Apocalypse – EUA, 1991)
Direção: Fax Bahr, George Hickenlooper, Eleanor Coppola
Roteiro: Fax Bahr, George Hickenlooper
Com: Francis Ford Coppola, Eleanor Coppola, George Lucas, John Milius, Martin Sheen, Tom Sternberg, Dean Tavoularis, Fred Roos, Vittorio Storaro, Robert Duvall, Laurence Fishburne
Duração: 96 min.