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Crítica | Flow (2024)

Só sobrevive quem aceita a transformação.

por Luiz Santiago
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Desde os primórdios da Filosofia Ocidental, quando Tales de Mileto identificou a água como a substância primordial de toda a existência, ela se tornou um símbolo universal das constantes transformações e mistérios da vida, convidando a uma reflexão profunda sobre a natureza efêmera das coisas. É a partir desse prisma, repleto de lirismo, que Flow se apresenta como uma lembrança ao eterno fluir da realidade, onde a água age como criadora e destruidora, encarnando a essência das contradições do pensamento e da experiência sensível, abrindo caminho para uma narrativa visual que dialoga com diversas tradições filosóficas e simbólicas. Dirigida por Gints Zilbalodis, a animação letã nos conduz por conceitos não-literais e uma belíssima arte que desafia a rigidez do real, repensando a interligação entre o humano e o natural, o visível e o intangível, num fluxo incessante de possibilidades.

Neste universo distópico, onde os diálogos e a presença humana estão ausentes, a água vai muito além de um simples pano de fundo, impulsionando a renovação de um cosmos que se constrói e é destruído como fábula. Cada traço da animação digital evidencia a beleza e magnitude do projeto, realizado de forma independente e com recursos restritos, sem recorrer à imitação de comportamentos ou expressões humanas por parte dos animais (ainda que se questione o nível de inteligência ou a plausibilidade de um gato, uma capivara e um lêmure agirem de determinada maneira nos momentos mais críticos do filme) e evitando o sentimentalismo exacerbado ou o chororô forçado por uma trilha sonora manipulativa que contaminam muitas produções contemporâneas.

O gato preto, protagonista da fita, é um sobrevivente da grande enchente que precisa se relacionar com animais de diferentes espécies e aprender algumas coisas, até mesmo a sentir algum prazer em atividades anteriormente impensáveis para ele, como mergulhar na água repetidamente para observar o movimento dos cardumes e pescar peixes de cores distintas. Ele é um peregrino simbólico, cuja jornada (mítica, de certa forma), ganha mais relevo por conta do silêncio verbal, e sua amizade com outros bichos vai expondo diversos arquétipos em jornadas de transformação — assim como o mundo à volta deles — flutuando entre o imprevisível e a descoberta de novos animais que precisam entrar no barco (arca?) e de novas situações inexplicáveis da vida, como a ascensão aos céus da ave de rapina, por exemplo. As cores da cena em que o gato e a ave vão até o topo do rochedo, assim como toda a direção daquela sequência, abraçam a fantasia, o sonho e o sobrenatural, adicionando um elemento inexplicável muito bonito e interessante à obra.   

Ao rejeitar o antropomorfismo, o diretor dá mais beleza e naturalidade aos gestos, expressões e impulsos dos personagens. Eles carregam potenciais significados (por vezes incompletos) que, aos olhos maravilhados do espectador, podem revelar algo surpreendente, especialmente na forma como se conectam com um exterior incontrolável, vide a maneira como farejam o perigo no ar, captando sinais tanto do solo quanto do ambiente. A textura dos pelos desses animais pode até desagradar quem prefere uma estética mais realista, mas é fundamental lembrar que, para o que o enredo pretende transmitir — uma visão que abraça e aceita as imperfeições da existência, a diversidade de perspectivas nas relações e a transitoriedade da vida (conceitos que incorporam elementos do taoísmo e dos Vedas) — esse estilo de desenho um pouco mais rústico, que não mascara as variações de coloração, a presença de água em seus corpos ou a incidência de luz e sombra sobre eles, acaba fazendo todo o sentido.

O encontro final com a baleia, que se manifesta de diferentes formas ao longo do filme, reforça uma ideia de ciclo, consagrando o enredo no mais alto degrau de impacto, importância e variedade de sentimentos despertos no espectador atento. Entre morte e renascimento (aqui, eu poderia me estender por dezenas de parágrafos, citando referências mitológicas de diversos lugares do mundo que dão suporte a esta leitura do diretor), vemos que a superação de uma das enchentes da vida, quando tudo está bem, novos laços foram feitos e os novos afetos estão seguros, há a constatação coletiva de que aquela paz só foi possível porque, em outro ponto da balança, algum sacrifício precisou ser feito. A fusão ou transição entre terra e água revela aos personagens que sua nova realidade (que não será eterna) é o resultado de um processo, é a “nova possibilidade” vinda da “fusão de opostos”, a harmonia vinda da tensão entre forças; a síntese depois da fusão de tese e antítese. 

O roteiro faz a uma reflexão profunda sobre a dualidade da passagem das Eras: para algumas criaturas, a inundação representa uma oportunidade; enquanto para outras, é um desafio e uma ameaça. Essa coexistência de experiências chama a atenção para a necessidade de acompanhar as mudanças e se transformar… ou então encarar a extinção. A equipe técnica de Flow demonstra um cuidado meticuloso ao explorar visual e tematicamente a ascensão e queda das civilizações e crenças (os resquícios da presença humana são absolutamente angustiantes!), utilizando a água como metáfora para a transitoriedade (fluidez) da vida e das estruturas sociais. Com um desenho de som simples, mas muito funcional, o diretor constrói uma ambientação autêntica, e assim como a música, que abraça a atmosfera da obra intensificando a melancolia e a beleza presentes na jornada dos personagens, não descamba para o excesso. Esta obra-prima nos lembra de que algumas mudanças são inevitáveis, e que sobreviver à fluidez interna e externa depende de vencer medos, saber relacionar-se com os diferentes, abraçar a coletividade e abstrair, mesmo com sentimentos conflitantes, que vida e morte são faces de uma mesma moeda. Tudo flui. Tudo muda. E isso é o que dá sentido à existência. 

Flow (Letônia, Bélgica, França, 2024)
Direção: Gints Zilbalodis
Roteiro: Gints Zilbalodis, Matiss Kaza, Ron Dyens
Duração: 85 min.

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