- Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas de todos os episódios da série e, aqui, de todo nosso material do universo The Walking Dead.
Depois de oito temporadas e 113 episódios, além de quatro web séries, Fear the Walking Dead o primeiro e mais longevo derivado de The Walking Dead chega a seu fim com dois episódios indo ao ar no mesmo dia. Como eu acompanhei e critiquei cada capítulo da saga desde 2015, não poderia deixar de trazer críticas e notas separadas para cada um dos dois episódios finais, com a crítica do 8X11 tendo sido redigida antes de o 8X12 ser conferido, como costumo fazer em situações assim. Confiram!
8X11
Fighting Like You
Fear the Walking Dead sofre cronicamente de falta de planejamento. E isso especialmente a partir do momento em que Andrew Chambliss e Ian Goldberg passaram a comandar a série lá na quarta temporada. Tudo parece cair de paraquedas, sem muito contexto, sem muita explicação, sem muita lógica. Os próprios retornos de Madison e de Troy foram mal pensados e mal inseridos na narrativa, mas nós, espectadores que queríamos um retorno à fase pré-Chambliss/Goldberg e um fechamento da narrativa amputada ao final da terceira temporada, aceitamos sem reclamar muito. Afinal, não há ganho sem sacrifício.
Mas aí em vem o penúltimo episódio de uma série de oito temporadas que traz de volta um semi-vilão que eu até tinha esquecido que ainda estava vivo – ou eu nunca verdadeiramente liguei para o seu destino – para ser um obstáculo no caminho de Troy em seu plano para tirar PADRE de Madison. Falo, claro, do borra botas Ben Krennick, mais conhecido como Crane, ou o irmão da vilã principal da primeira parte da temporada que ficava falando no rádio atrás de um vidro dupla face como se fosse o sujeito mais importante do mundo.
Para que diabos Fighting Like You precisava dele? Nem mesmo para fechar um arco narrativo ele era necessário e tudo o que ele consegue fazer é estender a duração do episódio criando armadilhas perfeitamente inseridas em locais que era impossível ele saber com certeza que teriam algum efeito e com o objetivo de, você adivinhou, recuperar PADRE. Todo mundo corre atrás dessa ilha e eu muito sinceramente já estou querendo que alguém jogue uma bomba nuclear por lá para ela ficar inabitável de tanta raiva que estou pegando dessa “Terra Prometida” furreca que inventaram. E o pior é que, na linha de todos os vilões da série criados por essa dupla de showrunners, Crane não oferece nenhum senso de ameaça e é derrotado com Madison chamando desmortos para a direção dele. Minha reação foi soltar uma risada de total incredulidade para a idiotice que fizeram aqui.
Façam um breve exercício mental e imaginem o episódio sem Crane e seus capangas. Seria muito fácil e muito mais fluido trabalhar o conflito central do capítulo sem esses desvios supostamente perigosos para criar suspense fajuto. Até mesmo o galho enfiado no ombro de Troy depois que seu caminhão é catapultado por uma das armadilhas de Crane (que deve ter aprendido com os Ewoks, em O Retorno de Jedi) é um negócio mal aproveitado, pois parece que o vilão caolho está completamente preso ali a ponto de ele não conseguir sair para ajudar sua filha, mas quando Madison aparece por lá, ele pula do caminhão com galho e tudo como se nada tivesse acontecido, sai na pancada com ela e, depois, ainda tem forças para cavar uma cova para sua esposa zumbificada e acertar a pá na cabeça de Madison. Eu não costumo reclamar de problemas assim em série, mas é que ficou ridículo demais, um desleixo grande demais para um momento em tese tão importante.
Não fosse a presença realmente magnética da jovem Tracy (Antonella Rose revela-se como uma das melhores do elenco!) que basicamente tem resposta para tudo e não deixa nada barato, eu não sei se teria suportado toda a lenga-lenga até o momento em que parece que seu pai vai final e magicamente tornar-se bonzinho, somente para Madison cravar o braço mecânico de Alicia na barriga dele, o que lhe dá tempo de dizer que Tracy é sua neta. Era óbvio que Madison ia fazer o que fez (e foi bastante ridículo Troy não desconfiar de nada) e era ainda mais óbvio que Tracy seria transformada, no último segundo, em algo mais, ainda que ela ser a filha sequestrada de Alicia me pareça estranho, talvez uma mentira de Troy para fazer Madison cuidar da menina, mas, pelo menos, os showrunners tiveram a coragem de fazer Madison matar Troy de uma vez por todas. Deixá-lo vivo seria um escárnio completo.
Com isso, a grande vilã da série torna-se, ironicamente, a própria Madison e eu espero que isso seja bem usado no episódio final, ainda que eu tenha certeza de que Alicia reaparecerá vivinha da silva com alguma explicação qualquer para ela ter sumido por tanto tempo, o que levará tudo a um final feliz para a família Clark, mesmo que Madison morra novamente. Sobre os demais personagens, bem, tenho para mim que eles apenas farão parte do pano de fundo do capítulo final, já que todos eles foram completamente desperdiçados por Chambliss e Goldberg até agora e não há razão alguma para isso mudar.
8X12
The Road Ahead
Para surpresa de absolutamente ninguém, Alicia estava mesmo viva esse tempo todo e, ainda por cima, com o gatinho Skidmark a tiracolo. E, como se isso não bastasse, ninguém foi atrás dela, mas sim ela voltou de moto próprio e conseguiu achar a cabana que Tracy havia feito para cuidar de uma Madison dada por morta por seus amigos depois que ela novamente se sacrificou pela coletividade. É como uma temporada inteira de potencial razoável sendo espremida em alguns poucos minutos e contada por meio de diálogos apenas, sem sequer uma sequenciazinha de flashback para ilustrar o que aconteceu. Mas eu estou me adiantando. Deixe-me rebobinar.
Madison Clark morreu no estádio lá atrás na metade da quarta temporada. Um sacrifício nobre. Uma falta que se fez sentir. Mas, como os novos showrunners de FTWD precisavam de algo bombástico para a última temporada da série, a personagem retornou ao final do ano anterior. No entanto, bem no estilo claudicante dos showrunners, metade da temporada final ficou perdida ao redor de PADRE e uma ameaça que nunca realmente tornou-se realmente ameaçadora, com a narrativa girando ao redor do salto temporal que inventaram de fazer. Na segunda metade, a coisa começou a entrar nos cheios, quase como se Andrew Chambliss e Ian Goldberg estivessem reconhecendo que a versão original de Fear the Walking Dead, que acabou na terceira temporada, precisava de um fim efetivo, o que os fez também resgatar Troy do mundo dos mortos com um projeto de vingança contra Madison e esbravejando para quem quisesse ouvir que matara Alicia.
Mas matar Madison uma só vez não foi o suficiente. Era necessário matá-la novamente, desta vez sob as mãos da pequena Tracy na sequência mais telegrafada dos últimos anos, lá na garagem de carros antigos que, não sei se vocês repararam, tem até um DeLorean com a portas abertas. Falando em telegrafar cenas, a dose foi dupla, pois a segunda ressuscitação de Madison se deu graças à medalhinha de santo que ela colocou dentro do pente de balas no bolso de sua jaqueta de couro que, claro, foi exatamente o lugar onde a bala disparada por Tracy foi parar. Só que duas mortes também não foram suficientes e, em uma espaço de poucos minutos, Madison, depois de facilmente salvar seus amigos em PADRE (sério, bastou um sinalizador e pronto?), “morre explodida novamente”. Eu não sei se agradeço porque pararam na terceira morte ou se fico desapontado que não teve uma quarta e, talvez, uma quinta…
E o mais surreal é que quem cava os escombros de PADRE para achar sua “avó” é a pequena Tracy que, ato contínuo, carrega o corpo inerte de Madison até uma cabana estilo militar e ministra medicamentos tirados sei-lá-de-onde para salvá-la, somente para, então, magicamente, Alicia aparecer viva, arrumar uma desculpa mais do que esfarrapada para ela ter ficado longe esses vários anos, e todo mundo ficar muito feliz, mesmo com a revelação final de que Tracy não era neta de Madison coisa nenhuma (eu não disse, na crítica anterior, que essa revelação de Troy me parecia estranha?). E ainda sobrou tempo para os showrunners darem aquela “enganada esperta” e arrumar fins para os personagens mais importantes da série, levando-os a caminhos separados depois de palavras de conciliação (até em alemão!) e a ideia brilhante do casal junta-separa de fundar uma nova PADRE – agora MADRE – lá no ex-Santuário de Negan.
Eu sei que escrevi tudo em todo de ironia e sarcasmo, mas, no final das contas, considerando tudo o que Chambliss e Goldberg me fizeram passar com essa série, eu até que gostei da maneira como o encerramento foi feito, tendo como pano de fundo a reiteração do status de lenda de Alicia e a criação da lenda da própria Madison salvadora. Foi definitivamente positivo e simpático – devolver Skidmark para Daniel e deixar aquela florzinha para Strand foram toques fofos, vai? – e, mais definitivamente ainda, ver Madison ao lado de Alicia e Tracy, com Nick na latinha, me fez até mesmo, por um centésimo de segundo, imaginar-me vendo um spin-off só delas em Los Angeles. Mas foi só um centésimo de segundo mesmo, podem ficar tranquilos.
Não foi, no final das contas, um final especial ou épico ou mesmo minimamente memorável, mas ele poderia ter sido infinitamente pior, como já aconteceu diversas vezes em FTWD. E só de não ter sido um negócio intragável, sem o menor sentido ou lógica, já me faz ficar feliz. Sim, sei que estou me contentando com muito pouco, especialmente no caso de uma série que realmente nunca se provou, mas, no momento, considerando os oitos anos acompanhando a série, o negócio é lamber os beiços com o que nos foi entregue. De uma forma ou de outra, uma coisa é certa: chega dessa franquia para mim!
Fear the Walking Dead – 8X11 e 8X12: Fighting Like You e The Road Ahead (EUA, 19 de novembro de 2023)
Showrunner: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Direção: Haifaa al-Mansour (8X11); Michael E. Satrazemis (8X12)
Roteiro: Nick Bernardone, Jacob Pinion, Kelly Jane Costello (8X11); Ian Goldberg, Andrew Chambliss (8X12)
Elenco: Kim Dickens, Colman Domingo, Rubén Blades, Danay García, Austin Amelio, Christine Evangelista, Jenna Elfman, Jayla Walton, Daniel Sharman, Isha Blaaker, Julian Grey, Antonella Rose, Daniel Rashid
Duração: 40 min. (8X11); 53 min. (8X12)