Desde Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica (2020) a Pixar vem tentando lidar com as mudanças no rumo de produções do estúdio e, principalmente, na dinâmica de exibição de seus filmes — que hoje terminam complementando o catálogo da Disney Plus em curto prazo após a estreia nos cinemas. Dos longas lançados durante ou pouco tempo depois à pandemia de COVID (e aqui refiro-me aos meses dos cinemas fechados ou aos meses dos cinemas com capacidade reduzida e obrigações sanitárias), apenas Luca (2021) ganhou duradoura e fervorosa repercussão, trazendo a atmosfera que normalmente se espera de uma obra da Pixar. Mesmo com os simpáticos Soul (2021) e Red: Crescer é uma Fera (2022), o estúdio não conseguiu demonstrar o seu tão aplaudido “toque de Midas“. As esperanças de mudança foram ainda mais profundamente frustradas com a chegada de Lightyear (2022), que além de não ter tido o esperado retorno financeiro, não chegou aos pés da promessa que alardeava, sendo apenas um “filme ok” e de qualidade inferior a tudo o que o estúdio lançara desde Carros 3 (2017).
Nesse contexto, a chegada de Elementos aos cinemas veio como uma aposta grandiosa que, mais uma vez, foi frustrada pela baixa bilheteria imediata em território nacional (o longa estreou nos Estados Unidos em 16 de junho de 2023) e pela recepção morna da crítica, que, com razão, não se empolgou tanto assim. A aposta do estúdio em renovar o sangue da equipe criadora acabou indo por um caminho incompreensível de escolhas, gerando um produto que reflete bem essa confusão. No roteiro de Elementos, temos 3 escritores que nunca trabalharam antes com animações e que possuem uma carreira na televisão, em séries de comédia. Já o diretor Peter Sohn, que assinou O Bom Dinossauro (2015), não é um cineasta muito hábil e, especialmente aqui, tem dificuldade em juntar as situações dramáticas, abandonando um lado de seu enredo e deixando outra parte incompleta, justamente porque tentou atirar em diversas possibilidades.
Esteticamente, ao menos, estamos diante de uma produção incrível. Embora eu tenha reservas na maneira como alguns personagens coadjuvantes foram animados (sem movimentos convincentes, pouco amplos ou repetitivos, o que não é algo típico da Pixar), há que se elogiar a criação de Element City e a conjunção de elementos (fogo, água, terra, ar) vivendo naquele local. Uma das linhas temáticas da obra é a imigração e as relações sociais entre indivíduos de diferentes raças, abordagem que ganha representação encantadora na cidade, com bairros completamente diferentes e interação igualmente distinta dos elementos com os espaços urbanos. Essa dinâmica visual somada ao seu componente estético (cores, textura e detalhes de cenários e personagens) definitivamente prende qualquer um. Mesmo com o diretor cavando emoções a cada 15 minutos, temos um filme cheio de momentos bonitos e interessantes. Infelizmente, a história que nos está sendo contada sofre de muitos problemas de desenvolvimento, e não há componente visual ou musical que consiga consertar isso — especialmente porque o diretor não faz nada para sair de suas próprias armadilhas.
Em essência, estamos diante de uma comédia romântica em animação. O clichê “menino conhece menina” está presente e, por mais bem aplicado que seja, tem de marcante apenas o fato de estarmos falando de dois elementos (fogo e água) vivendo essas emoções. A abordagem sobre a imigração e as dificuldades de um estrangeiro construir a vida num país diferente é rapidamente abandonada, para retornar às pressas, no final, como mais um gerador de lágrimas. As “piadinhas elementais” da obra funcionam a maior parte do tempo, e servem para quebrar um pouco a toada automática que o filme adota como base. Senti falta de cenas a mais com o elemento ar nessas piadinhas (afinal, a água tem o choro constante, no lado emocional; a terra tem o lado fértil e libidinoso; o fogo tem o ímpeto gerador de coisas e o ar…?), mas isso também não é grave. Para mim, foi mais problemático foi ver conflitos se resolvendo rápido demais ou com Deus Ex Machina (a sobrevivência de Wade, por exemplo); linhas dramáticas abandonadas e problemas paralelos se entrelaçando de forma desajeitada no roteiro, como a questão de classe entre Amber (Leah Lewis), que vem do subúrbio e Wade (Mamoudou Athie), que vem da parte nobre da cidade. E nem vou perder tempo falando da ameaça dos canais inundados.
Elementos não é um filme desprovido de alma. Ver os 4 formadores químicos convivendo no mesmo espaço e uma trama emotiva juntando essas “criaturas” é algo divertido e, com certeza, atingirá em cheio ao seu público-alvo. Mas a qualidade da obra não está no alto nível das produções da Pixar, que antes não precisava bater no peito e gritar sobre o quão visualmente bonitos eram os seus longas, porque isso todo mundo já sabe. A questão é que além de uma animação de primeira qualidade, tínhamos histórias inesquecíveis, com narrativa focada, desenvolvendo personagens de maneira a marcar gerações. Não é este o caso, no momento. Elementos até me lembrou bastante Mundos Estranho (2022), da Disney, que a despeito de seu visual estonteante, não conseguiu contar uma história que subisse uns degraus para cima de “um filme legalzinho“. O que está acontecendo com esses estúdios?
Elementos (Elemental) — EUA, 2023
Direção: Peter Sohn
Roteiro: John Hoberg, Kat Likkel, Brenda Hsueh
Elenco (vozes originais): Leah Lewis, Mamoudou Athie, Ronnie Del Carmen, Shila Ommi, Wendi McLendon-Covey, Catherine O’Hara, Mason Wertheimer, Ronobir Lahiri, Wilma Bonet, Joe Pera, Matthew Yang King, Clara Lin Ding, Reagan To, Jeff LaPensee, Ben Morris, Jonathan Adams
Duração: 109 min.