Para realmente apreciar a gostosura que é Atire a Primeira Pedra, o cinéfilo precisa se abstrair da época em que vivemos hoje, muito mais cínica, muito mais sombria em termos cinematográficos e muito mais realista. Precisa se transportar para uma era mais preto no branco, mais rasa (mas não menos interessante), mais caricata, mais surreal. Precisa apreciar os grandes atores de outra época. Precisa mergulhar em uma narrativa hoje talvez simplória, mas que é profundamente gratificante. Precisa, literalmente, transportar-se de corpo e alma para outro estado de espírito, outra conjuntura astral, se você acreditar nesse tipo de coisa.
Atire a Primeira Pedra, uma tradução de título daquelas quase aleatórias que as distribuidoras nacionais gostam de fazer, é de um finesse visual que, hoje, é muito raro. A maioria das sequências são internas filmadas em um saloon. É lá que a história verdadeiramente se desenrola, ainda que haja curtas sequências externas como a de Destry chegando na diligência, o tiroteio do lado de fora da fazenda dos Claggett e na rua principal de Bottleneck, a cidade fictícia onde se passa o filme. Há também outras sequências internas, no escritório do xerife e na casa dos Tyndall, mas tudo que não se passa no saloon está lá apenas para dar gosto e dimensão à trama, como adendos necessários muito mais para proporcionar ao espectador uma experiência completa do que algo realmente determinado pelo roteiro. E George Marshall, que começou sua carreira focado em westerns, mas cujos filmes, hoje, são infelizmente pouco lembrados, faz um trabalho sensacional ao dividir a atenção do público em diversos segmentos, mas sempre trazendo a narrativa para o incrivelmente belo e desproporcionalmente gigantesco saloon, que permite uma movimentação de câmera muito livre e original, com tomadas áreas, travellings e panorâmicas contrabalançadas por planos médios, além de uma quase inacreditável coreografia de atores e extras em quantidades generosas. E, mesmo sendo um exemplar da visão idealizada do “filme de cowboy”, com todos sempre bem barbeados, vestindo roupas limpas e com casas sempre bem higienizadas e iluminadas, Marshall tem a capacidade de nos convencer, na medida do necessário, da veracidade de sua reconstrução de época, com uma produção requintada, atenta aos detalhes e bonita, simplesmente muito bonita.
Em Bottleneck, quem manda é Kent (Brian Donlevy) que, em um jogo de cartas marcadas, “ganha” o rancho de Lem Claggett (Tom Fadden) que fica estrategicamente localizado e, por isso, permite que ele o use para cobrar pela passagem de gado por ali. No esquema da jogatina ilegal também está a deslumbrante Frenchy (Marlene Dietrich), cantora, dançarina e estrela do saloon, amada por todos (menos, claro, pelas mulheres “de bem”). Claggett reclama com o xerife Keogh (Joe King) que, quando vai resolver a situação, é assassinado por Kent e seus capangas. Ato contínuo, o prefeito da cidade, que está no bolso de Kent, nomeia, como novo xerife, Washington “Wash” Dimsdale (Charles Winninger), um bêbado falastrão que, claro, poderá ser controlado mais facilmente por Kent. Mas acontece que Wash já fora delegado do xerife Tom Destry, já falecido, e ele convoca o filho de seu antigo chefe, Tom Destry Jr. (James Stewart), para ser seu delegado.
Quando Destry chega na cidade, a imagem básica do pistoleiro durão é demolida por um James Stewart fazendo o que faz de melhor: o papel idealista e inocente de um homem de coração fundamentalmente bom. Nada o irrita, nada o faz pegar em armas (ele nem anda com revólveres). É claro que ele vira a piada local, até que seus métodos menos ortodoxos, mas muito mais eficientes, acabam gerando frutos.
Qualquer cinéfilo de carteirinha saberá rapidamente dizer o que acontece ao longo do filme. Vivemos em um mundo muito mais cínico, como já disse, e personagens só bons ou só maus costumam ser coisa do passado. Mas Atire a Primeira Pedra, como deixei claro, precisa ser visto com essa visão de passado para ser verdadeiramente apreciado. James Stewart, novinho, mas já veterano na Sétima Arte, está muito a vontade em seu papel de bom moço e ele consegue carregar muito bem a narrativa inocente, cômica e também dramática que se desenrola. No entanto, é evidente que, em um filme com Marlene Dietrich, fica difícil até para o melhor ator dividir a tela com ela sem que a atriz alemã mastigue o cenário completamente e atraia para si toda a atenção. E isso é especialmente saliente se consideramos o cuidado de seu figurino nesse filme – sempre com um diferente a cada nova sequência – e as variadas cenas em que participa, valendo destaque para o engraçado pastelão que é a briga dela com Lily Belle (ou “Mrs. Calahan”, vivida por Una Merkel), depois que Boris (Mischa Auer), seu segundo marido, literalmente perde as calças jogando pôquer com Frenchy. E, é claro, nem é preciso dizer que Dietrich arrasa com sua famosa voz grave e com leve sotaque nos três números musicais (diegéticos sempre) que tem, cantando as inesquecíveis Little Joe the Wrangler, See What the Boys in the Back Room Will Have e You’ve Got That Look.
Assistir Stewart contracenando com Dietrich deve criar algum tipo de reação química no cérebro dos espectadores, pois é simplesmente impossível não sorrir, não esquecer do mundo ao redor e mergulhar na troca de olhares de raiva, de paixão, de cumplicidade entre eles. A cada sequência em que Dietrich entra, a já bela fotografia em preto e branco do tarimbado Hal Mohr ganha mais resplandecência, mais clareza, mais magnetismo. Piscar ou desviar os olhos por uma fração de segundo sequer não é uma opção.
Atire a Primeira Pedra é, no final das contas, um deleite audiovisual de uma época que nuca mais voltará e que não deixará a memória de quem o assistir.
Atire a Primeira Pedra (Destry Rides Again, EUA – 1939)
Direção: George Marshall
Roteiro: Felix Jackson, Gertrude Purcell, Henry Myers (baseado em romance de Max Brand)
Elenco: Marlene Dietrich, James Stewart, Mischa Auer, Charles Winninger, Brian Donlevy, Allen Jenkins, Warren Hymer, Irene Hervey, Una Merkel, Tom Fadden, Joe King
Duração: 94 min.