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Comecei minha crítica de Prometheus estabelecendo um paralelo entre o retorno de Ridley Scott ao universo Alien e a desastrosa volta de George Lucas à Star Wars para dirigir a Trilogia Prelúdio, pelo que não pude resistir à tentação de fazer algo semelhante com Alien: Covenant. Afinal, o segundo prelúdio de Alien, o Oitavo Passageiro representa uma mudança de rumo no projeto de Scott, mais ou menos como foi A Ascensão Skywalker em relação a Os Últimos Jedi, a diferença principal sendo que a qualidade do filme do meio da Trilogia Sequência (e eu sei que sou uma voz quase solitária em achá-lo um ótimo capítulo) foi destruída pela reforma trazida pelo encerramento, enquanto que algo “próximo” do contrário acontece com Covenant em relação ao filme anterior.
Só para ficar claro, Covenant nem de longe conserta Prometheus. Se alguma coisa, tudo fica ainda mais bagunçado, mas, filme por filme, na comparação fria, vejo mais qualidades no segundo prelúdio do que no primeiro, mesmo que Ridley Scott tenha basicamente defenestrado aquilo que começou a contar em Prometheus, ou seja, a história dos Space Jockeys, dos “Engenheiros” que teriam sido os literais “deuses astronautas” responsáveis pela criação do Homem na Terra. Afinal, por grande parte de sua duração, Covenant é uma tentativa de retorno ao horror espacial que marco o longa de 1979, com uma nave colonizadora a caminho de um planeta parecido com a Terra tendo sua rota desviada pela interceptação de uma transmissão misteriosa vinda de outro planeta que poderia sustentar vida humana, somente para que os tripulantes que saem emergencialmente da criogenia por ação do androide Walter (Michael Fassbender) sejam mortos de pouco em pouco ao longo da minutagem da obra em razão, claro, de variações anteriores dos queridos xenomorfos, além da burrice completa que eles demonstram já começando por decidirem pousar no planeta e andar por lá sem nenhum tipo de proteção.
Fassbender, aliás, é o único ator de Prometheus que retorna e em papel duplo como o já citado Walter, bonzinho e prestativo, e também como David, agora na versão louco furioso e genocida que não só dizimou a população de Engenheiros do planeta em que chegou com a gosma preta encontrada em LV-223, como, surpresa, surpresa, foi o responsável pela criação da variação ovo+facehugger que conhecemos como a base para os monstros originais. Aliás, minto, Fassbender não é o único a voltar, já que há um prelúdio com Peter Weyland (Guy Pearce agora com menos maquiagem) em que vemos a ativação de David e o uso “póstumo” da voz e do semblante de Elizabeth Shaw (Noomi Rapace), personagem que, de protagonista, passou a cadáver dissecado em um estalar de dedos sem nem direito a flashback. Ou seja, há dois filmes em um, o primeiro existente apenas para vender a obra como um mata mata com xenomorfos (ou neomorfos e praetomorfos, como preferirem) e o outro para continuar, mas sem verdadeiramente continuar, a história megalômana de Prometheus, ainda que reduzindo tudo a um androide querendo ser um deus – da morte, mas mesmo assim um deus – e acabar com toda a vida humanoide do universo.
Mas, curiosamente, é justamente David revelando-se como um Dr. Moreau que funciona bem. Ou melhor, funciona melhor do que a eliminação paulatina da tripulação da Covenant, tripulação essa que vou me abster de comentar mais detalhadamente por ser composta de personagens com zero de desenvolvimento que não criam o mínimo de empatia com o espectador. E poderia ter funcionado melhor ainda justamente se o lado da tripulação da Covenant não existisse ou se fosse resolvido com a mesma eficiência e rapidez da eliminação da população de Engenheiros do planeta, pois isso abriria espaço para trabalhar com mais vagar o desequilíbrio de David e o processo que o leva à versão robótica da psicopatia. Se o David de Fassbender em Prometheus era tão asséptico quando a direção de fotografia de lá, aqui sua transformação é boa, fazendo jus à capacidade dramática do ator que mastiga o cenário quando finalmente aparece como David, o que, diante do restante do elenco completamente subaproveitado, não é uma tarefa muito difícil.
Incomoda-me que Scott, tendo obtido resultados até hoje imbatíveis com a criação de um monstro espacial apenas com efeitos práticos, tenha preferido mergulhar quase que completamente na computação gráfica para trabalhar as criaturas. Isso já estava presente em Prometheus, eu sei, mas, aqui, as variações dos xenomorfos são mais presentes e relevantes e ver bits e bytes no lugar de algo puramente prático (sim, também houve uso de atores para a captura de performance, mas não falo disso) em uma renderização digital que, sendo chato, nem é lá tão perfeita assim, foi uma decepção. Nada contra o emprego da tecnologia em sequências como a de ação final em cima da nave de resgate, mas para os monstros foi um banho de água gelada.
Alien: Covenant é um híbrido entre retorno ao clássico da franquia e continuação de Prometheus que não faz nenhuma dessas coisas bem, em uma correção de curso até covarde de Ridley Scott que só consegue minimamente se salvar porque toda a construção dessa versão genocida de David é bem mais interessante do que qualquer outra coisa nos dois prelúdios. Teria sido muito mais interessante e ousado se, mesmo com os problemas graves do primeiro filme, o cineasta tivesse insistido no caminho original de contar a história dos Engenheiros, aproximando-a do longa original e não criando ainda mais incongruências pelo menos em tese inconciliáveis.
Alien: Covenant (Idem – EUA/Reino Unido, 2017)
Direção: Ridley Scott
Roteiro: John Logan, Dante Harper
Elenco: Michael Fassbender, Katherine Waterston, Billy Crudup, Danny McBride, Demián Bichir, Carmen Ejogo, Jussie Smollett, Callie Hernandez, Amy Seimetz, Nathaniel Dean, Alexander England, Benjamin Rigby, Uli Latukefu, Tess Haubrich, Guy Pearce, James Franco, Noomi Rapace, Lorelei King, Goran D. Kleut, Andrew Crawford
Duração: 122 min.