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Crítica | A Linguagem da Persuasão

Crítica e paródia.

por Fernando JG
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Beba Coca-Cola!”. Este é o slogan que abre o curta-metragem de Joaquim Pedro de Andrade. Nenhuma imagem mais simbiótica do que esta serviria para ilustrar as intenções que residem por de trás do criador de um filme que se chama “A linguagem da persuasão”. Com um estilo que parodia aquilo que é alvo da sua própria crítica – isto é, os comerciais e propagandas -, este grande nome do Cinema Novo Brasileiro reflete acerca do consumismo na sociedade moderna, tecendo críticas veladas da maior qualidade por meio de um cinema super modernizado e atualizado com as propostas mais contemporâneas que emergem na teoria cinematográfica dos anos de 1960. 

Uma das coisas mais interessantes deste curto documentário é o diálogo que faz com a sua contemporaneidade e tendências de arte que estão ao redor. Com muita lucidez, recupera preceitos basilares da arte pop estadunidense e chama, mesmo que indiretamente, Andy Warhol para a cena através dessa montagem que se assemelha a uma bricolagem com elementos variados da cultura popular, apresentando, em meio a cores vibrantes, produtos de consumo, prateleiras, figuras conhecidas e muita velocidade entre uma cena e outra. 

Quando ainda se faziam muitos filmes em preto e branco, ou com poucos realces, Joaquim Pedro de Andrade opta por uma estética warholiana. É a maneira que o cineasta encontra para fazer com que a estrutura de seu cinema se aproprie das mesmas ferramentas utilizadas pelas propagandas que está criticando e as utilize como forma de contra-ataque. O documentário pressupõe já uma crise da forma cinematográfica como resposta a uma insatisfação ao seu meio.

Ferreira Gullar faz a narração em off, expondo problemas e desafios os quais fazem parte da moderna sociedade de consumo. “Comunicação em massa. Uma linguagem que diz a todo instante o que você deve fazer de manhã ou de noite. Compre. Beba. Fume. Emagreça. Leia. Veja. Ande. Fale!”. Embora godardiano na forma e warholiano na estética, o documentário é bem didático, unindo imagem e som com uma finalidade prática e portanto social, tal qual o Cinema Novo quisera. Em todos os momentos, a narração desmascara as ferramentas utilizadas pela propaganda para persuadir o consumidor e mostra uma visada feroz do sistema econômico.

Cinco décadas depois, a obra escrita por José Carlos Avellar e dirigida por Joaquim Pedro permanece ainda muito fresca e juvenil, como se narrasse os problemas de ontem à tarde, um ontem que tem durado mais de um século a fio, em que vidas são influenciadas, gostos são moldados, destinos, manipulados, democracias, quebradas e a liberdade colocada em debate. Um documentário simples mas rico em sua contação de história, A Linguagem da Persuasão tem postura de obra universal, não só pelo cosmopolitismo das influências que estruturam a sua forma, mas por unir a ela um tema comum e uma preocupação latente a toda a sociedade ocidental.

Linguagem da Persuasão (Brasil, 1973)
Direção: Joaquim Pedro de Andrade
Roteiro: José Carlos Avellar
Elenco: Ferreira Gullar (narração)
Duração: 10 min.

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