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Crítica | O Reformatório Nickel, de Colson Whitehead

Vidas que não valem nem cinco centavos.

por Ritter Fan
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A primeira vez que tive contato com o nome de Colson Whitehead foi assistindo a fenomenal minissérie Underground Railroad – Os Caminhos para a Liberdade, baseada em seu livro homônimo de 2016 que lhe valeu seu primeiro prêmio Pulitzer de obra ficcional. Três anos depois, o autor lançou seu livro seguinte, O Reformatório Nickel, que lhe valeu novamente o mesmo prêmio, o que o posiciona como um de apenas quatro autores a conseguir esse feito e o primeiro – e por enquanto único – afrodescendente e que ganhou uma adaptação cinematográfica em 2024. E foi entre minha experiência com a minissérie capitaneada por Barry Jenkins e o longa de RaMell Ross que decidi ler o referido romance, que é surpreendentemente curto, mas ao mesmo tempo denso e doloroso.

Whitehead, na verdade, tinha uma ideia bem diferente para o livro que seguiria Underground Railroad, mas a eclosão das investigações dos crimes cometidos na centenária Dozier School for Boys, reformatório na Flórida que foi palco de violência institucionalizada contra jovens para lá enviados pelo sistema judiciário, levou-o a repensar seu caminho, elegendo construir uma versão ficcional do que havia sido descoberto e comprovado. No entanto, o que autor faz em seu romance, por  incrível que pareça, vai muito além desse recorte específico que, sem dúvida alguma, representa apenas uma fração do que ocorreu e provavelmente ainda ocorre em instituições semelhantes. Corajosamente, as atrocidades cometidas no reformatório em questão, rebatizado como Nickel Academy no livro, são, no fundo, fios condutores para uma narrativa que primorosamente condensa a opressão racial estrutural nos EUA, usando os jovens afro-americanos Elwood Curtis e Turner como focos de sua atenção em dois momentos temporais: nos anos 60, em pleno momento de ebulição da luta pelos direitos civis nos país e nos anos 2010, depois da descoberta dos crimes cometidos no reformatório.

É sempre perigoso quando um romancista tenta lidar de maneira ampla com temas espinhosos, mas o que Whitehead inteligentemente faz é usar toda as oportunidades ao seu dispor para organicamente lidar com o preconceito racial profundamente enraizado na sociedade americana. Elwood, um menino inteligente, curioso, voraz leitor e prestes a começar a estudar literatura inglesa em uma faculdade que oferece cursos gratuitos, tem sua vida pontuada e pontilhada por uma existência que ele muito claramente enxerga como sendo subsidiária, sempre em segundo plano e em estado de subserviência em relação aos brancos dominantes, algo que é inflamado pelos protestos pelos EUA e pela figura de Martin Luther King, Jr., cujo discurso no Monte Zion é o único LP que ele possui na casa em que vive com a avó. Whitehead usa narrativa em terceira pessoa a partir do ponto de vista do jovem para imediata e inclementemente erigir muros altíssimos ao seu redor que vão desde pequenas decepções como a competição de lava-pratos para ganhar uma enciclopédia deixada por um hóspede em um  quarto do hotel onde trabalhava até momentos definidores em sua vida como a participação em protesto pelos direitos civis e, claro, sua prisão por estar em momento errado, em lugar errado, e, claro, por ter a cor de pele que tem. Mesmo assim, Elwood é um jovem que tem esperança no sistema e na capacidade de mudança da Humanidade a ponto de poder ser chamado de ingênuo.

Mesmo no reformatório – bonito e vistoso por fora, horroroso e assustador por dentro -, que tem política de segregação e que trata os detentos brancos de maneira muito diferente dos pretos, Elwood mantém sua visão de mundo, algo que passa a ser imediatamente contrastada pelo horrores que é obrigado a passar e a testemunhar e pela amizade que estabelece com Turner, um jovem pragmático, que encara as coisas de maneira mais fria, realista e direta, quase que o exato oposto do protagonista. Esse contraste muito evidente entre personalidades é meu único “porém” sobre o livro, já que mesmo considerando os eventos finais que, de certa forma, justificam essa escolha, pareceu-me um caminho um tanto quanto confortável demais para Whitehead que, com isso, fatalmente didatiza algumas situações que já estavam sobejamente claras pelo contexto que constrói. Mas é um “porém” pequeno, admito, já que Turner também ganha atenção suficiente da narrativa para funcionar como um  personagem relevante que, mesmo dependendo da conexão com Elwood para existir de forma completa, conta com um arco de desenvolvimento de qualidade.

O que mais tem potencial para chocar o leitor – e é talvez algo que só será sentido em retrospecto – é o quanto Colson Whitehead consegue oferecer um texto que é fácil e… gostoso de ler, se é que posso usar esse adjetivo considerando a temática. O autor joga uma rede tão ampla e ao mesmo tempo tão bem trabalhada, que a tragédia do racismo estrutural parece aquilo que ela é na verdade até hoje, um “mero” fato do cotidiano. Essa constatação é de arrepiar, de tirar qualquer um do sério e deveria ser criminoso alguém fazer o que Whitehead faz, mas a grande verdade é que ele, com isso, quando o leitor realmente para para pensar no que acabou de ler, força essa conclusão sem parecer ter forçado absolutamente nada, como aquele seu amigo cínico e muito inteligente que, em pouca palavras, escancara verdades incômodas. Mas não se enganem: ele escreve com suprema elegância, com controle absoluto de pausas e construções de orações e parágrafos que desfilam horror atrás de horror sem permitir que o leitor afaste os olhos das páginas e sem enveredar por descrições explícitas. As palavras de Whitehead são como areia movediça, tragando-nos para baixo sem nos dar nenhum tipo de saída que não seja aceitar, indefesos, o destino que nos espera, algo que, aliás, é o que Elwood e Turner, representando toda uma etnia, passaram e continuam passando todos os dias.

O Reformatório Nickel (The Nickel Boys – EUA, 2019)
Autoria: Colson Whitehead
Editora original: Doubleday
Data original de publicação: 16 de julho de 2019
Editora no Brasil: HarperCollins
Tradução: Rogerio Galindo
Páginas: 240

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