Durante grande parte do século XX, pessoas com problemas mentais severos eram “tratadas” com procedimentos extremamente duros, como a lobotomia, coma induzido e eletro choque. Sem contar nos espaços deploráveis que esses pacientes eram e ainda são colocados em algumas partes do mundo. Não à toa, a luta antimanicomial persiste até hoje. Agindo como um espelho da sociedade, a arte diversas vezes debateu esses processos de saúde mental, sendo Um Estranho no Ninho o exemplo mais conhecido.
Em 2017, o diretor Jon Avnet, conhecido por Tomates Verdes Fritos, realizou Três Cristos, que aborda essa temática por intermédio de um roteiro baseado em fatos reais. O longa apresenta o Dr. Alan Stone (Richard Gere), que precisar tratar três pacientes esquizofrênicos e paranoicos no Hospital Estadual Ypsilanti, em Michigan. Cada um deles acredita ser Jesus Cristo e, contrariando as normas da época, Alan decide tratá-los fazendo-os conviver diariamente.
A película abre de forma bastante promissora, trazendo legendas que pontuam como ocorriam tratamentos mentais na época e apresentando o protagonista como um sujeito disposto a questionar alguns processos obviamente errados. Além disso, o roteiro inteligentemente estimula o público a seguir a história ao mostrar de cara que o experimento deu errado, fazendo-nos perguntar por quê.
Porém, o que começa de forma entusiasmante, se transforma em um filme clichê e pouco profundo. Tematicamente, o longa nunca consegue transmitir algo além da importância de tratar pacientes de forma humana, uma mensagem importante, sem dúvida, mas que fica clara na abertura. É frustrante perceber que a obra de Avnet sequer tenta trazer algo a mais sobre a psique humana ou sobre a psicologia. A mensagem fica clara no início e nada de interessante surge depois disso. Portanto, o filme foca apenas em humanizar os três cristos e aproximá-los da audiência, como se os próprios realizadores não vissem potencial nos personagens para a construção de arcos independentes.
Além disso, mesmo analisando a obra apenas por um viés teológico, a obra é pobre. As três versões de Cristo soam mais como estereótipos do que como figuras que realmente se vêem como um ser sagrado. Ou seja, a oportunidade de debater diferentes faces de Cristo também é desperdiçada. No entanoto, vale ressaltar o esforço que Peter Dinklage, Walton Goggins e Bradley Whitford colocam em seus papéis, construindo personagens cativantes. O maior destaque fica para Goggins, que ressalta a oscilação de Leon, indo da intimidação ao companheirismo sem parecer exagerado.
Porém, o único foco do roteiro está no arco do Dr. Stone. Para isso, o longa aposta em um possível triângulo amoroso que jamais convence; um drama familiar pouco explorado; e um segredo sobre o passado de Stone que passa longe de emocionar. Para piorar, Richard Gere está apenas razoável, pouco acrescentando a um personagem escrito de forma comum. Ele é carismático, mas só.
De positivo, temos a direção de Avnet, mostrando-se eficiente ao pontuar nuances emocionais do longa. Veja, por exemplo, como no segundo ato o diretor opta por tons quentes, enquanto o experimento está dando certo; já no terço final a fotografia de surge em cores frias, uma vez que o experimento passa a enfrentar dificuldades. Já a montagem acerta ao intercalar cenas em momentos chave da película, criando alguma tensão.
Contudo, a sensação que fica ao final de Três Cristos é que a produção não passa de um imenso potencial desperdiçado. A premissa interessante e repleta de possibilidades, como uma discussão psicológica ou teológica, dá lugar a uma obra previsível e que se interessa apenas em ter uma mensagem agradável no fim. Ainda que a estratégia simplista seja executada de forma aceitável, o resultado é apenas um filme good vibes genérico.
Três Cristos (Three Christs) – EUA, 2017
Direção: Jon Avnet
Roteiro: Jon Avnet, Eric Nazarian
Elenco: Richard Gere, Peter Dinklage, Walton Goggins, Bradley Whitford, Charlotte Hope, Julianna Margulies, Kevin Pollak, James Monroe Iglehart, Stephen Hoot, Jane Alexander, Julian Acosta, Danny Deferrari, Chris Bannow
Duração: 117 min